Scientia Forestalis, volume 43, n. 105
p.127-134, março de 2015

Produtividade, estabilidade e adaptabilidade em progênies de polinização aberta de Eucalyptus urophylla S.T. Blake

Productivity, stability and adaptability in open pollination progenies of Eucalyptus urophylla S.T. Blake

Silvelise Pupin1
Arielen Virgínea de Araújo dos Santos2
Darlin Ulises Gonzalez Zaruma3
Aline Cristina Miranda3
Paulo Henrique Muller da Silva4
Celso Luis Marino5
Alexandre Magno Sebbenn6
Mario Luiz Teixeira de Moraes7

1Pós-graduanda em Agronomia da Faculdade de Engenharia.  UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Av. Brasil - 56 – Centro - 15.385-000 - Ilha Solteira, SP.  E-mail: silvelise.pupin@gmail.com.
2Graduada em Agronomia da Faculdade de Engenharia.  UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Av. Brasil - 56 – Centro - 15.385-000 - Ilha Solteira, SP. E-mail: vir-gi-nea@hotmail.com.
3Pós-graduando(a)  em Ciências Florestais da Faculdade de Ciências Agronômicas.  UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Av. José Barbosa de Barros, 1780 – 18.610-307 – Botucatu, SP. Email: dg_zoo@hotmail.com.
4Pesquisador do IPEF -  Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Caixa Postal: 530 - 13.400-970 – Piracicaba, SP. Email: paulohenrique@ipef.br
5Professor titular do Departamento de Genética. UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Distrito de Rubião S/N – 18.618-970 – Botucatu, SP. Email: clmarino@ibb.unesp.br.
6Pesquisador Doutor do IF -  Instituto Florestal de São Paulo. Caixa Postal 1322 - 01059-970 – São Paulo, SP. E-mail: alexandresebbenn@yahoo.com.br.
7Professor Titular do Departamento de Fitotecnia, Tecnologia de Alimentos e Sócio Economia. UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” / Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira. Av. Brasil - 56 – Centro - 15.385-000 - Ilha Solteira, SP. E-mail: teixeira@agr.feis.unesp.br.

Recebido em 24/02/2014 - Aceito para publicação em 03/10/2014

Resumo

A predição de ganhos genéticos dentro dos programas de melhoramento nem sempre são compatíveis com os observados na prática. Um dos motivos é a falta de conhecimento da interação dos genótipos versus ambientes (GxA). Este trabalho teve como objetivo conhecer a variação genética, avaliar a interação GxA, investigar a correlação genética entre pares de ambientes e estudar a produtividade, estabilidade e adaptabilidade do caráter diâmetro a altura do peito (DAP), mensurado aos 2 anos de idade, em cinco testes de progênies de Eucalyptus urophylla, implantados em delineamento de blocos completos casualizados, com número de progenies variando de 138 a 167, quatro a oito blocos e cinco a seis plantas por parcela. As estimativas de componentes de variância e parâmetros genéticos foram obtidas utilizando o método REML/BLUP e para análise de produtividade, estabilidade e adaptabilidade, utilizou-se o método MHPRVG. Os maiores crescimento para o DAP foram observados em Anhembi (10,52 cm) e Uberaba (10,20 cm). Foram obtidas estimativas consideradas de alta magnitude para o coeficiente de variação genética aditiva individual (>13,3%) e herdabilidade da média entre progênies (>0,40), indicando a possibilidade de se obter ganhos genéticos com a seleção entre progênies. O coeficiente de determinação da GxA foi 1,7%, o que conduziu a um alto valor de correlação genotípica entre o desempenho das progênies e os ambientes (78,1%), indicando que a interação GxA é do tipo simples. As seis primeiras progênies apresentaram coincidência de 100% no ordenamento para estabilidade (MHVG), adaptabilidade (PRVG) e produtividade (MHPRVG), sendo 13% superior em relação à média geral dos experimentos (9,2 cm). Ordenando as progênies, a seleção das 20 melhores produz uma superioridade de crescimento variando de 10,4 e 70%. Anhembi é o local ideal para a condução de uma população de melhoramento para atender os demais locais.
Palavras-chave: melhoramento genético, interação genótipo x ambiente, REML/BLUP.

Abstract

Prediction of genetic gains within breeding programs is not always compatible with those observed in practice. One reason for this inconsistency is the lack of knowledge of genotype-environment interaction (GxE). The aim of this study was to estimate genetic variation, evaluate the GxE, investigate the genetic correlation between pairs of environments and for the set, and to study the productivity, stability and adaptability at 2 years of age for diameter at breast height (DBH) in five progenies trials of Eucalyptus urophylla, used in a randomized complete block design, with the number of progenies ranging from 138 to 167, four to eight blocks and five to six plants per plot. Estimates of variance components and genetic parameters were obtained using the REML/BLUP method. For analysis of productivity, stability and adaptability, the HMRPGV method was used. The highest DBH growth was observed in Anhembi (10.52 cm) and Uberaba (10.20 cm). Estimates considered high were obtained for the coefficient of individual additive genetic variation (>13.3%) and average heritability among progenies (>0.40), indicating the possibility of obtaining genetic gains by selection among progenies. The coefficient of determination of the GxE was 1.7%, a fact that led to a high value of genotypic correlation between the performance of the progenies and environments (78.1%), indicating that the interaction is simple. The first six progenies showed a coincidence of 100% in the order of stability (HMGV), adaptability (RPGV) and productivity (HMRPGV), being 13% higher than the overall mean of five experiments (9.21 cm). When ordering the progenies, the selection of the 20 best in growth led to an increase in gain ranging of from 10.4 to 70%. Anhembi is the ideal place to have a breeding population which will be good in the other places as well.
Keywords: tree breeding, genotype x environment interaction, REML/BLUP.


INTRODUÇÃO

O setor florestal brasileiro é reconhecido e valorizado por sua importância econômica, ambiental e social (ASSIS; RESENDE, 2011). A eucaliptucultura é considerada estratégica para o setor industrial brasileiro, devido ser a principal fonte de matéria-prima para os segmentos de papel, celulose e siderurgia. Dentre as diversas espécies de Eucalyptus que são cultivadas no Brasil, destaca-se o E. urophylla (LOBÃO et al., 2004), introduzida inicialmente para contornar o problema de cancro do eucalipto, que afetava os plantios de E. grandis e E. saligna. A espécie apresentou vantagens como: potencial produtivo, boa capacidade de rebrota, facilidade de enraizamento, adaptação a diferentes condições edafoclimáticas, resistência ao déficit hídrico e ao fungo causador da ferrugem (Puccinia psidii), e principalmente a tolerância ao cancro do eucalipto (FERREIRA, 1992; MOURA, 2004; ROCHA et al., 2006). Em função desses fatores, E. urophylla é o principal componente do híbrido com o E. grandis, possibilitando a ampliação de plantios em regiões que antes eram inadequadas.

O melhoramento florestal tem contribuído com setor florestal aumentando a produtividade, mas nas novas fronteiras florestais, a produtividade ainda é baixa, em virtude da falta de genótipos adaptados (REIS; PALUDZYSZYN, 2011). Para Barros et al., (2008), a interação dos genótipos versus ambientes (GxA) pode ser definida como a inconsistência de desempenho dos genótipos nos vários ambientes. De acordo com Namkoong et al. (1966), a interação GxA pode gerar estimativas errôneas e inflacionadas de variação genética, afetando diretamente o ganho de seleção e dificultando a recomendação de genótipos com ampla adaptabilidade. Uma das alternativas para minimizar os efeitos da interação GxA é a escolha simultânea de genótipos de alta produtividade, estabilidade e adaptabilidade (CRUZ; CARNEIRO, 2003), que pode ser realizada pelo método de predição da Média Harmônica da Performance Relativa dos Valores Genéticos (MHPRVG). Entre outras vantagens, esse método permite lidar com dados desbalanceados e a heterogeneidade de variâncias, fornecer valores para estabilidade e adaptabilidade genotípica e gerar resultados na própria escala ou grandeza do caráter avaliado, possibilitando que os resultados sejam interpretados diretamente como valores genéticos (RESENDE, 2004; VERARDI et al., 2009). Isso permite calcular o ganho genético para o caráter considerando a produtividade, estabilidade e adaptabilidade (RESENDE, 2004; VERARDI et al., 2009).

Este estudo teve por objetivos: i) estimar a variação genética em cinco testes de progênies de polinização aberta de E. urophylla; ii) avaliar a interação GxA; iii); investigar a correlação genética entre pares de ambientes e para o conjunto de ambientes; iv) estudar a produtividade, estabilidade e adaptabilidade das progênies; v); propor estratégia ao melhoramento de E. urophylla em nível de locais e para as regiões de abrangência dos experimentos estudados.


MATERIAL E MÉTODOS


a) Localização e caracterização das áreas experimentais

Foram avaliados cinco testes de progênies de E. urophylla ao quais representam a base genética da espécie no Brasil. Os testes foram estabelecidos pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF) nos municípios de Anhembi-SP, Itatinga-SP, Itamarandiba-MG, Uberaba-MG e Selvíria-MS (Tabela 1). Os testes foram estabelecidos no delineamento experimental de blocos completos casualizados, com número de progenies variando 138 a 167, quatro a oito blocos e cinco a seis plantas por parcela. Aos dois anos de idade foi avaliado o caráter diâmetro a altura do peito (DAP) em todos os testes de progênies.

Tabela 1. Caracteristicas dos locais dos testes de progênies de Eucalyptus urophylla.
Table 1. Site characteristics of Eucalyptus urophylla progeny tests.
Anhembi-SP Itatinga-SP Itamarandiba-MG Uberaba-MG Selvíria*-MS
N° de progênies 167 166 166 138 166
Instalação Dez. 2009 Abr. 2010 Out. 2009 Jan. 2010 Dez. 2009
Esp. (m) 3,0 x 2,0 3,0 x 2,0 3,0 x 2,0 3,0 x 2,0 3,0 x 2,5
Rep.xPls/Parc. 4 x 6 4 x 6 4 x 6 8 x 5 5 x 5
Latitude (S) 22°28' 23°13' 17°45' 9º18' 20°21'
Longitude (W) 48°07' 48°34' 42°46' 48º 01' 51°24'
Altitude (m) 472 827 910 850 375
Solo RQ LVAd LVA LAc LVd
Clima Aw Cwa Cwa Aw Aw
T.M.A. (°C) 21,8 19,7 22,6 22,6 24,8
P.M.A. (mm) 1300 1372 1100 1474 1309
*Selvíria: ocorrência de pragas; T.M.A.: Temperatura média anual; P.M.A.: Precipitação média anual; RQ: Neossolo quartzarênico; LVAd: Latossolo Vermelho Amarelo distrófico; LVA: Latossolo Vermelho Amarelo; LAc: Latossolo Amarelo ácrico típico; LVd: Latossolo Vermelho distrófico típico; Aw: clima tropical com estação seca de inverno; Cwa: clima temperado úmido com inverno seco e verão quente.


b) Estimativas dos parâmetros genéticos

As estimativas dos componentes de variância foram obtidas pelo procedimento REML/BLUP (máxima verossimilhança restrita/melhor predição linear não viciada), empregando-se o programa genético-estatístico SELEGEN-REML/BLUP (RESENDE, 2007b). A avaliação individual de testes foi analisado pela metodologia do modelo linear misto (aditivo univariado) – REML/BLUP, assumindo progênies com sendo de meios-irmãos, seguindo o modelo proposto por Resende (2002, 2007b): y = Xr + Za + Wp + e; em que: y é o vetor de dados, r é o vetor dos efeitos de repetições (assumido como de efeito fixo), somados a média geral, a é o vetor dos efeitos genéticos aditivos individuais (aleatório), p é o vetor dos efeitos de parcelas (aleatório) e e é o vetor de erros (aleatórios). As letras maiúsculas representam as matrizes de incidência para referidos efeitos. A análise conjunta dos testes de progênies, tomados dois a dois e envolvendo todos os locais foi realizada com base no modelo estatístico (RESENDE, 2007a, b): y = Xr + Za + Wp + Ti + e, que é semelhante ao primeiro modelo, com a inclusão do vetor i, que se refere aos efeitos da GxA (aleatório) da matriz de incidência T, que está associada a esse efeito. Os parâmetros genéticos estimados forma: herdabilidade em nível de plantas individuais no sentido restrito (); herdabilidade média entre progênies (); herdabilidade aditiva dentro de parcelas (); coeficiente de determinação dos efeitos de parcelas (); coeficiente de determinação dos efeitos da interação genótipo x ambiente (); correlação genotípica entre progênies nos vários ambientes ().


c) Produtividade, estabilidade e adaptabilidade

As análises referentes à produtividade, estabilidade e adaptabilidade foram obtidas com base no procedimento MHPRVG, empregando também o programa SELEGEN-REML/BLUP. A estabilidade corresponde a Média Harmônica dos Valores Genotípicos nos locais (MHVG), a adaptabilidade refere-se à Performance Relativa dos Valores Genotípicos em relação à média de cada local (PRVG), e a estabilidade e adaptabilidade simultaneamente,corresponde a Média Harmônica da Performance Relativa dos Valores Genotípicos (MHPRVG). Para esta analise foi utilizado o modelo estatístico: y = Xr + Zg + Wp + Ti + e (RESENDE, 2007a,b), em que: y, r, g, i e e são os vetores de dados referentes aos efeitos de repetição (fixos), genotípico (aleatórios), parcelas (aleatórios), da interação GxA (aleatórios) e do resíduo (aleatório), respectivamente. X, Z W e T representam as matrizes de incidência para os referidos efeitos.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

O teste da razão de verossimilhança (LRT) entre progênies foram significativas em todos os locais, indicando a possibilidade de se obter ganhos genéticos com a seleção entre progênies. As maiores médias para o DAP foram observados em Anhembi-SP (10,52 cm) e Uberaba-MG (10,20 cm) (Tabela 2). A amplitude de variação foi alta (2,76 cm) e reflete a produtividade diferenciada nos locais estudados. Em Itatinga-SP (8,76 cm) e Itamarandiba-MG (8,38 cm) os crescimentos médios foram similares e Selvíria apresentou a menor média (7,76 cm). O menor crescimento em Selvíria se deve a incidência de pragas e alta mortalidade de plantas.

O crescimento em DAP neste estudo foi similar aos observados em outros trabalhos com eucalipto (KAGEYAMA; VENCOVSKY, 1983; MORAES, 2013). Contudo, as progênies em Anhembi e Uberaba apresentaram crescimento superior aos encontrados na literatura (ROSADO et al., 2009; SATO et al., 2010; ROSADO et al., 2012).

Tabela 2. Estimativas de parâmetros genéticos para o caráter diâmetro a altura do peito (DAP) em testes de progênies de Eucalyptus urophylla, avaliados aos 2 anos de idade.
Table 2. Estimates of genetic parameters for diameter at breast height (DBH) in Eucalyptus urophylla progeny tests assessed at 2 years of age..
Estimativas Anhembi-SP Itatinga-SP Itamarandiba-MG Uberaba-MG Selvíria-MS
0,19±0,04 0,48±0,06 0,44±0,06 0,35±0,05 0,13±0,04
0,54 0,76 0,69 0,79 0,40
0,15 0,41 0,40 0,29 0,11
0,006 0,005 0,059 0,008 0,066
13,26 19,93 13,36 17,73 14,39
6,63 9,96 6,68 8,87 7,20
12,35 11,19 8,91 12,97 19,69
0,54 0,89 0,75 0,68 0,37
Média (cm) 10,52 8,76 8,38 10,20 7,76
LRT 39,73** 155,58** 90,59** 191,99** 6,58*
 é herdabilidade em nível de plantas individuais no sentido restrito;  é a herdabilidade média entre progênies;  é a herdabilidade aditiva dentro de parcelas;  coeficiente de determinação dos efeitos de parcelas;  é o coeficiente de variação genética aditiva individual;  é o coeficiente de variação genotípica entre progênies;  é o coeficiente de variação experimental;  é o coeficiente de variação relativa (); Média geral (μ); teste da razão de verossimilhança (LRT); **significativo a 1% com 1 grau de liberdade.

Os valores do coeficiente de variação experimental () variaram de 8,9% (Itamarandiba) a 19,7% (Selvíria), considerados como intermediários (GOMES; GARCIA, 2002), indicando variação genética que pode ser explorada pela seleção entre progênies. Adicionalmente, em todos os locais as estimativas do coeficiente de variação genética aditiva individual () foram (> 10%), confirmado a possibilidade e alteração a media da população pela seleção entre progênies. Itatinga (19,9%) e Uberaba (17,7%) expressaram as maiores estimativas. De acordo com Aguiar et al. (2010), quanto maior o valor do , maior e a possibilidade em encontrar indivíduos com genótipo superior e de se obter ganhos com a seleção. Estimativas de   para o DAP em outras populações de melhoramento de E. urophylla foram menores e variaram de 5,2 a 12,7% (ROCHA et al., 2007; ROSADO et al., 2009; SOUZA et al., 2011). Isso indica que a população estudada aqui tem maior potencial para o melhoramento genético.

As estimativas para o coeficiente de variação genotípica entre progênies () foram metade do , variando de 6,6% (Anhembi) a 10% (Itatinga). Esses resultados indicam que as diferenças genéticas são maiores entre os indivíduos do que entre as progênies. Isso se deve provavelmente ao fato de que as progênies apresentam misturas de diferentes tipos parentescos, como meios-irmãos, irmãos completos, irmãos de autofecundação e irmãos de autofecundação e cruzamentos.

As estimativas de coeficiente de determinação dos efeitos de parcelas (), obtidas em todos os locais foram baixas (RESENDE, 2002), implicando que o delineamento de blocos completos casualizados foi eficiente no controle ambiental e que o efeito de bloqueamento não afetou a predição dos parâmetros genéticos (não existência de covariâncias dentro de blocos).

O coeficiente de herdabilidade para a média de progênies () foi superior às estimativas dos demais coeficientes de herdabilidade (Tabela 2). A estimativa de  variou entre os ambientes de 0,40 (Selvíria) a 0,79 (Uberaba), indicando substancial controle genético na herança do caráter DAP entre progênies, logo a possibilidade de se obter ganhos genéticos com a seleção das melhores progênies.

O coeficiente de herdabilidade em nível de plantas individuais no sentido restrito () e dentro de progênies () variaram entre os testes de 0,11 a 0,48 (Tabela 2). Com exceção de Selvíria (0,13), todos os demais locais tiveram estimativas que podem ser interpretadas como medianas (0,15<=0,50, RESENDE, 1995), logo a seleção massal dentro dos teste e entre plantas dentro de progênies poderia ser utilizada para obter-se ganhos genéticos, principalmente em Itatinga e Itamarandiba. As estimativas da herdabilidade indicam que a seleção com base na média de progênies deve ser mais eficiente que a seleção massal e dentro de progênies, considerando a mesma intensidade de seleção.

O coeficiente de variação relativa (), parâmetro que indica a razão entre o coeficiente genotípico do indivíduo e o coeficiente experimental (VENCOVSKY; BARRIGA, 1992) variou de 0,37 (Selvíria) a 0,89 (Itatinga), o que indica que a seleção pode ser mais eficiente Itatinga do que em Selviria, visto que o valor foi mais próximos à unidade em Itatinga.

O coeficiente de determinação da interação genótipo x ambiente (), representada pela variação da interação GxA foi de 1,7% (Tabela 3). O baixo valor de  conduziu a alta estimativa (78,1%) da correlação genotípica entre o desempenho das progênies e os ambientes (), indicando que a interação foi do tipo simples, ou seja, a classificação das progenies nos diferentes ambientes não mudou substancialmente e a seleção pode ser realizada em um dos cindo ambientes.

Tabela 3. Estimativas de parâmetros genéticos e da interação genótipo x ambiente para o DAP, em progênies de Eucalyptus urophylla aos dois anos de idade.
Table 3. Estimates of genetic parameters and genotype x environment interaction for DAP in Eucalyptus urophylla progeny tests at 2 years of age.
Estimativas Locais TODOS
1 x 2 1 x 3 1 x 4 1 x 5 2 x 3 2 x 4 2 x 5 3 x 4 3 x 5 4 x 5
0,29±0,03 0,18±0,03 0,25±0,03 0,17±0,03 0,28±0,03 0,31±0,03 0,29±0,04 0,19±0,03 0,21±0,03 0,27±0,03 0,24±0,02
0,76 0,61 0,77 0,66 0,61 0,77 0,73 0,59 0,03 0,77 0,86
0,23 0,15 0,20 0,13 0,24 0,26 0,24 0,16 0,21 0,22 0,20
0,0056 0,0111 0,0064 0,0139 0,0130 0,0073 0,0184 0,0171 0,0773 0,0136 0,0112
0,0049 0,0174 0,0098 0,0044 0,0487 0,0184 0,0154 0,0367 0,0993 0,0097 0,0172
0,9363 0,7270 0,8628 0,9030 0,5888 0,8070 0,8254 0,5691 0,3495 0,8741 0,7808
µ(cm) 9,64 9,44 10,28 8,98 8,55 9,68 8,18 9,57 8,03 9,23 9,21
LRT 71,44** 31,94** 51,70** 25,75** 34,16** 62,01** 42,06** 22,67** 84,54** 43,95** 250,21**
 é herdabilidade em nível de plantas individuais no sentido restrito;  é a herdabilidade média entre progênies;  é a herdabilidade aditiva dentro de parcelas;  coeficiente de determinação dos efeitos de parcelas;  é o coeficiente de determinação dos efeitos da interação genótipo x ambiente;  é a correlação genotípica entre progênies nos vários ambientes; Média geral (μ); teste da razão de verossimilhança (LRT); **significativo a 1% com 1 grau de liberdade. 1: Anhembi-SP; 2: Itatinga-SP; 3: Itamarandiba-MG; 4: Uberaba-MG e 5: Selvíria-MS.

Pela análise conjunta de locais dois a dois, os coeficientes da interação GxA revelaram, que em geral, a interação explicou uma pequena proporção da variabilidade fenotípica para as combinações, com exceção das combinações entre Itatinga x Itamarandiba (2x3), Itamarandiba x Uberaba (3x4) e Itamarandiba x Selvíria (3x5), conduzindo as menores estimativas para  (58,9, 56,9 e 34,9%, respectivamente. Assim, embora Itamarandiba não seja o local menos produtivo, foi o ambiente que teve as menores correlações com os demais. Adicionalmente, verifica-se que Anhembi é o ambiente que apresenta as maiores correlações com os demais locais, o que sugere que seria indicado como o local ideal para a seleção de genótipos.

A herdabilidade média entre progênies para a analise conjunta dos ambientes foi alta (0,86) e maior do que a herdabilidade individual e dentro de progênies. Portanto, a maior parte da variação fenotípica observada entre as progênies e de natureza genética. As estimativas de herdabilidade do nível de médias de progênies foram altas para todas as combinações, com exceção da combinação entre Itamarandiba e Selvíria (0,03), considerada como a menos produtiva (8,03 cm).

Com base nos parâmetros de estabilidade (MHVG), adaptabilidade (PRVG) e simultaneamente para produtividade, estabilidade e adaptabilidade (MHPRVG) foram selecionadas 20 progênies (Tabela 4). A pequena variação observada indica estabilidade das progênies. As seis primeiras progênies (74, 85, 66, 78, 75 e 59) coincidem 100% quando comparadas com a análise conjunta dos cinco testes de progênies. Isso indica plasticidade do material testado. Isso é um indicativo de que predições seguras sobre os valores genéticos podem ser feitas, contemplando os três atributos produtividade, estabilidade e adaptabilidade (PINTO JÚNIOR et al., 2006).

A média das seis melhores progênies foi aproximadamente 13% superior à média geral dos cinco experimentos (9,21 cm). Já a superioridade da progênie de melhor desempenho produtivo, comportamento estável e adaptada (progênie 74) foi de aproximadamente 16% em relação às demais, avaliadas pela análise conjunta. Considerando as 20 primeiras progênies selecionadas simultaneamente, a superioridade foi de 10,4% a mais em relação à análise conjunta.

Tabela 4. Seleção das melhores progênies de Eucalyptus urophyllaa com base no DAP, para estabilidade (MHVG), adaptabilidade (PRVG) e simultaneamente para produtividade, estabilidade e adaptabilidade (MHPRVG), aos 2 anos de idade.
Table 4. Selection of the best progenies of Eucalyptus urophylla based on DAP for stability (HMGV), adaptability (RPGV) and simultaneously for productivity, stability and adaptability (HMRPGV) at 2 years of age.
Ordem Prog MHVG Prog PRVG PRVG*MG Prog MHPRVG MHPRVG*MG
1 74 10,415 74 1,158 10,671 74 1,158 10,669
2 85 10,150 85 1,129 10,401 85 1,129 10,399
3 66 10,108 66 1,125 10,364 66 1,124 10,359
4 78 10,102 78 1,124 10,353 78 1,122 10,340
5 75 10,074 75 1,120 10,318 75 1,119 10,315
6 59 10,024 59 1,115 10,276 59 1,115 10,275
7 47 9,913 48 1,102 10,157 92 1,102 10,155
8 92 9,913 92 1,102 10,157 48 1,102 10,155
9 48 9,902 47 1,102 10,156 47 1,102 10,154
10 64 9,882 64 1,099 10,129 64 1,099 10,1278
11 82 9,878 61 1,099 10,124 61 1,098 10,121
12 61 9,870 82 1,098 10,119 82 1,097 10,110
13 79 9,826 79 1,094 10,076 79 1,093 10,075
14 93 9,803 93 1,091 10,054 93 1,091 10,053
15 84 9,780 81 1,089 10,035 81 1,089 10,032
16 167 9,778 84 1,088 10,029 167 1,088 10,024
17 77 9,765 167 1,088 10,025 84 1,088 10,022
18 87 9,754 77 1,086 10,007 77 1,086 10,003
19 94 9,746 87 1,084 9,990 94 1,083 9,984
20 154 9,744 94 1,084 9,985 87 1,083 9,979


CONCLUSÕES

Existe variação genética entre as progênies, logo a possibilidade de se obter ganhos com a seleção entre as melhores progênies.

A interação GxA é significativa e do tipo simples.

Existe pouca alteração no ordenamento das melhores progênies pelo critério de simultaneidade para produtividade, estabilidade e adaptabilidade.

Anhembi pode ser o local escolhido para condução de ensaios, cujo objetivo é a seleção de genótipos para atender os demais locais.


AGRADECIMENTOS

Ao Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), pelo apoio na obtenção dos dados, a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pela concessão de bolsa de mestrado e ao Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) pelas bolsas de produtividade em pesquisa.


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