Scientia Forestalis, volume 45, n. 115
setembro de 2017

Sobrevivência e crescimento inicial de espécies de eucalipto em diferentes condições climáticas

Survival and initial growth of eucalypts species across climatic conditions

Paulo Henrique Müller da Silva1
David John Lee2
Aline Cristina Miranda3
Celso Luís Marino4
Mario Luiz Teixeira de Moraes5
Rinaldo Cesar de Paula6

1Pesquisador Doutor. IPEF - Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Via Comendador Pedro Marganti, 3500 – Bairro Monte Alegre - 13415-000, Piracicaba, SP, Brasil. E-mail: paulohenrique@ipef.br
2Professor Associado. University of the Sunshine Coast / Forest Industries Research Centre. Maroochydore DC 4558, Queensland, Australia.
3Pesquisadora Doutora. Suzano Papel e Celulose / Unidade Mucuri. Rod. BR 101, Km 94,5, s/n – Zona Industrial – 45930-000 – Mucuri, BA, Brasil. E-mail:miranda.acf@gmail.com
4Professor Titular no Departamento de Genética. UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” / Instituto de Biociências. Distrito de Rubião Junior, s/n - 18618-970 - Botucatu, SP, Brasil. E-mail: clmarino@ibb.unesp.br
5Professor Titular no Departamento de Fitotecnia, Tecnologia de Alimentos e Sócio Economia. UNESP -  Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” / FEIS - Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira. Av. Brasil, 56 - 15385-000 - Ilha Solteira, SP, Brasil. E-mail: teixeira@agr.feis.unesp.br
6Professor Titular do Departamento de Produção Vegetal. UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” / FCAV - Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Jaboticabal. Via de Acesso Prof. Paulo Donato Castelane, S/N - Vila Industrial - 14884-900 - Jaboticabal, SP, Brasil. E-mail: rcpaula@fcav.unesp.br

Recebido em 13/12/2016 - Aceito para publicação em 30/05/2017

Resumo

No trabalho foi avaliado a adaptação de 19 espécies de eucalipto, a maioria delas sem tradição comercial em escala mundial, em diferentes condições climáticas. Foram utilizadas quatro espécies do gênero Corymbia (C. citriodora citriodora, C. citriodora variegata, C. henryi e C. torelliana) e 15 do gênero Eucalyptus de diferentes seções do subgênero Symphyomyrtus (E. amplifolia, E. argophloia, E. brassiana, E. brookeriana, E. camaldulensis, E. cladocalyx, E. crebra, E. denticulata, E. longirostrata, E. macarthurii, E. major, E. moluccana, E. occidentalis, E. thozetiana e E. urophylla). Foram instalados oito experimentos em diferentes condições climáticas (climas: Am, Aw, Cwa e Cfa), com latitude variando de 00o 37’ a 32º 10’. No Brasil, os ensaios foram instalados nos municípios de Macapá-AP na Região Norte, Itamarandiba-MG, Paraopeba-MG, Borebi-SP, Itatinga-SP na Região Sudeste, Três Lagoas-MS na Região Centro Oeste, Telêmaco Borba-PR na Região Sul e no Uruguai no município de Paysandu.  Os tratamentos foram instalados em parcelas retangulares de 7 x 7 plantas. A análise de adaptabilidade foi realizada a partir dos dados de sobrevivência e do crescimento inicial, utilizando-se o método da Média Harmônica da Performance Relativa do Valor Genético. As espécies E. argophloia, E. brookeriana, E. cladocalyx, E. crebra, E. denticulata, E. macarthurii, E. occidentalis e E. thozetiana não apresentaram boa adaptação apresentando baixa sobrevivência principalmente em condições tropicais (mortalidade > 50%). A espécie que apresentou maior sobrevivência na análise conjunta foi C. torelliana com sobrevivência de 98%. O local que apresentou maior mortalidade foi Macapá com 35% de sobrevivência na média das espécies, sendo que as espécies da seção Exsertaria (subgênero Symphyomyrtus) ou do gênero Corymbia de ocorrência natural de regiões tropicais apresentaram boa sobrevivência, maior tolerância a mancha foliar e maior crescimento. As espécies não comerciais que se destacam em crescimento foram E. longirostrata, C. henryi e E. major.
Palavras-chave: Eucalyptus; Corymbia; adaptação; estresses bióticos e abióticos

Abstract

In this study, 19 eucalypt species were evaluated for adaptation under different climatic conditions in Brazil and Uruguary, the majority of these species have no commercial tradition worldwide. Four of the species evaluated were of the Corymbia genus (C. citriodora citriodora, C. citriodora variegata, C. henryi and C. torelliana) and 15 of the Eucalyptus genus from different sections of the Symphyomyrtus subgenus (E. amplifolia, E. argophloia, E. brassiana, E. brookeriana, E. camaldulensis, E. cladocalyx, E. crebra, E. denticulata, E. longirostrata, E. macarthurii, E. major, E. moluccana, E. occidentalis, E. thozetiana and E. urophylla). Eight experiments were set up under different climatic conditions (climates: Am, Aw, Cwa and Cfa), latitude range from 00o 37' to 32o 10'. In Brazil, the trials were set up in Macapá-AP in the Northern Region, Itamarandiba-MG, Paraopeba-MG, Borebi-SP, Itatinga-SP in the Southeastern Region, Três Lagoas-MS in the Midwest Region, Telemaco Borba-PR in Southern Region and Uruguay near Paysandu City. The treatments were established with rectangular plots of 7 x 7 plants. The adaptability analysis were performed on the survival and initial growth data, using the Harmonic Mean Method of Relative Performance of Genetic Value. The species E. argophloia, E. brookeriana, E. cladocalyx, E. crebra, E. denticulata, E. macarthurii, E. occidentalis and E. thozetiana were poorly adapted, with low survival mainly in tropical conditions (mortality > 50%). The species that had the highest survival in the joint analysis was C. torelliana with survival of 98%. The Macapa trial only had 35% average species survival. In this trial species belonging to Exsertaria section (subgenus Symphyomyrtus)) or the genus Corymbia species from tropical sourcesexhibited good survival, tolerance to leaf spot and growth. The noncommercial eucalypts species that stand out for growth were E. longirostrata, C. henryi and E. major.
Keywords: Eucalyptus; Corymbia; adaptation; biotic and abiotic stresses.


INTRODUÇÃO

As espécies de eucalipto podem ser classificadas em grupos em relação ao processo de adaptação ao estresse, sendo que nessa classificação a produtividade é inversamente proporcional à tolerância (FLORENCE, 2004). A tolerância, por sua vez, é relacionada a eficiência no uso dos recursos e das características de aclimatação que dependem do genótipo (SILVA et al., 2016) e da intensidade do estresse que podem ser alterados com as mudanças do clima.  Atualmente é possível predizer as possíveis respostas das espécies de eucalipto difundidas mundialmente devido aos efeitos das mudanças do clima. Mas para as espécies com distribuição restrita não é possível predizer quais as consequências devido a carência de informações em distintos ambientes (BOOTH, 2016).

O efeito da mudança do clima para a seleção de genótipos comerciais não será apenas na tolerância aos estresses abióticos mais prolongados, mas também aos estresses bióticos, pois doenças e pragas estão relacionadas com as condições climáticas e são fatores que causam mortalidade e perda de produtividade dos plantios florestais (CAMPOE et al., 2016; SILVA et al., 2013; BRAWNER et al., 2011).

As principais doenças da cultura do eucalipto atualmente no Brasil são causadas por Puccinia psidii (ferrugem), Ceratocystis fimbriata (murcha de ceratocistis), Mycosphaerella/Teratosphaeria (mancha de mycosphaerella), Cylindrocladium pteridis (mancha foliar). Essas doenças são causadas por fungos que podem gerar a desfolha, deformação do fuste e mortalidade, com redução acentuada da produtividade, sendo observada em plantas de diferentes idades e de diversas espécies de eucalipto, constituindo-se um dos desafios para o melhoramento florestal, para condições climáticas que favorecerem o desenvolvimento dos patógenos (SILVA et al., 2015; AUER; SANTOS, 2011; RODAS et al., 2005).  As principais pragas são Leptocybe invasa (vespa-de-galha), Glycaspis brimblecombei (psilídeo-de-concha), Gonipterus platensis (gorgulho), Thaumastocoris peregrinus (percevejo-bronzeado) e Costalimaita ferruginea (besouro-amarelo) com maior área de ocorrência e maior quantidade de espécies suscetíveis que as doenças (PENTEADO et al., 2016; SOUZA et al., 2016; VILELA e ZUCCHI, 2015; SOLIMAN et al., 2012).

O número de doenças e pragas vem aumentando consideravelmente ao longo dos anos e existe o risco de novas ocorrências nas áreas tradicionais da silvicultura (WINGFIELD et al., 2008; 2001).  Assim, conservar e ampliar a base genética de diversas espécies de eucalipto é uma das opções para atenuar os impactos do aumento dos estresses, pois a diversidade que é fundamental para o ganho de produtividade em cada geração de melhoramento, também constitui uma forma de mitigar as ameaças bióticas e abióticas atuais e futuras dos plantios florestais (GARCIA et al., 2014; WINGFIELD et al., 2008; JURSKIS, 2005).

Apesar da quantidade de espécies existentes de eucaliptos, apenas algumas e seus híbridos são usados em plantações comerciais intensivas (ASSIS et al., 2015; POTTS; DUNGEY, 2004), especialmente as espécies do subgênero Symphyomyrtus (E. camaldulensis, E. dunnii, E. globulus, E. grandis, E. nitens, E. pellita, E. saligna, E. tereticornis e E. urophylla) que correspondem a mais de 90% dos plantios no mundo (HARWOOD, 2011).

No Brasil, as duas espécies mais utilizadas são E. grandis e E. urophylla, sendo que Corymbia citriodora, E. benthamii, E. brassiana, E. camaldulensis, E. dunnii e E. tereticornis, dentre outras também são trabalhadas, porém em menor escala. No país, é necessário conhecer a adaptação de espécies não tradicionais de eucalipto, com a aplicação da silvicultura atual, a qual evoluiu muito ao longo das últimas décadas (GONÇALVES et al., 2013) para posterior trabalho de introgressão de determinadas características das espécies por meio dos programas de melhoramento clássico. Isto, torna-se importante pois quanto maior for a base genética disponível para o programa de melhoramento, maior a capacidade de adaptação destas frente aos novos desafios, muitas vezes ainda desconhecidos, mas que requerem progresso contínuo e que são viáveis apenas a longo prazo (ZOBEL, 1976).

Desta forma, o objetivo do trabalho foi avaliar a sobrevivência e o crescimento inicial de espécies de eucalipto em diferentes condições ambientais com a finalidade de verificar o potencial de adaptação das espécies.


MATERIAL E MÉTODOS


Espécies estudadas

Foram utilizadas 19 espécies de eucalipto, de diferentes áreas de ocorrência do gênero Corymbia e também de diferentes seções do subgênero Symphyomyrtus do gênero Eucalyptus (Tabela 1), todas pertencentes ao Programa Cooperativo de Melhoramento Florestal, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF). A escolha dessas espécies visa o uso das mesmas em futuras hibridações, dentro de cada grupo grupos, com espécies e híbridos comerciais de forma a introduzir características de tolerância não presentes nas espécies tradicionalmente utilizadas.

Tabela 1. Espécies utilizadas nos experimentos
Table 1. Species used in the experiments
Trat Espécie Cod Seção
1 C. citriodora citriodora CCC Ochraria
2 C. citriodora variegata CCV Ochraria
3 C. torelliana CT Ochraria
4 C. henryi CH Ochraria
5 E. argophloia arg Symphyomyrtus - Adnataria
6 E. moluccana mol Symphyomyrtus - Adnataria
7 E. thozetiana tho Symphyomyrtus - Adnataria
8 E. crebra cre Symphyomyrtus - Adnataria
9 E. cladocalyx cla Symphyomyrtus - Aenigmataria
10 E. occidentalis occ Symphyomyrtus - Bisectaria
11 E. amplifolia amp Symphyomyrtus - Exsertaria
12 E. brassiana bra Symphyomyrtus - Exsertaria
13 E. camaldulensis cam Symphyomyrtus - Exsertaria
14 E. brookeriana bro Symphyomyrtus - Maidenaria
15 E. denticulata den Symphyomyrtus - Maidenaria
16 E. macarthurii mac Symphyomyrtus - Maidenaria
17 E. longirostrata lon Symphyomyrtus - Latoangulata
18 E. major maj Symphyomyrtus - Latoangulata
19 E. urophylla uro Symphyomyrtus - Latoangulata
O número de genótipos varia conforme o experimento devido a problemas de germinação e produção de mudas. *Latoangulata – antiga seção Transversaria


Locais de implantação e avaliações

Foram implantados oito experimentos, em áreas pertencentes a diferentes empresas florestais e instituição de ensino e pesquisa, do Brasil e Uruguai (Tabela 2). No Brasil foram conduzidos ensaios nos municípios de Macapá-AP, na região Norte, de Itamarandiba-MG, Paraopeba-MG, Borebi-SP e Itatinga-SP na região Sudeste, em Três Lagoas-MS na região Centro-Oeste e em Telêmaco Borba-PR, na região Sul; no Uruguai foi implantado no município de Paysandu. Os tratos culturais aplicados aos diferentes experimentos foram aqueles adotados pelas próprias empresas/instituições (Tabela 2), sendo realizado em todos os experimentos: preparo de solo (subsolagem > 0,45m); controle de formiga com aplicação de isca; controle químico de plantas daninhas, realizado com aplicação de herbicida pré e pós plantio, sendo feito o controle até o fechamento da copa; fertilização mineral composta por calagem, fertilização de base e cobertura (quantidade de nutriente de acordo com a análise solo);  e aplicação de gel ou irrigação,  realizada com a aplicação de 2 a 4 litros de água por planta após o plantio.

Tabela 2. Características climáticas dos locais de instalação
Table 2. Climatic characteristics of the experimental areas
Local de Implantação Empresa/Instituição Plantio Idade(ano) Esp. (m x m) Lat Long Altitude (m) Clima TMA (ºC) PMA (mm)
Macapá, AP Amcel jul-13 2,6 3,0 x 2,0 00º 37' 51º 17´ 115 Am 27,0 2.400
Itamarandiba, MG Aperam jun-14 1,5 3,0 x 3,0 17° 54' 42° 52' 1003 Cwa 21,4 1.167
Paraopeba, MG Vallourec fev-15 1,1 3,0 x 2,0 19º18' 44º30' 750 Cwa 20.4 1.300
Três Lagoas, MS Eldorado jun-13 2,1 3,4 x 2,3 20° 53' 52° 11' 355 Aw 23,4 1.340
Borebi, SP Lwarcel jan-14 2,4 3,0 x 2,6 22°48 48°54' 711 Aw 21,0 1.350
Itatinga, SP USP nov-13 2,7 3,0 x 2,0 23° 02' 48° 37' 850 Cwa 19,4 1.308
T. Borba,PR Klabin jan-14 2,0 3,0 x 2,0 24º 09' 50° 27' 700 Cfa 18,4 1.350
Paysandu,UR Forestal Oriental mai-14 2,1 3,0 x 2,5 32° 10' 58° 05' 24 Cfa 18.4 1.157
Lat – latitude; Long – longitude, Clima – segundo classificação de Köppen; TMA – temperatura média anual, PMA – precipitação média anual.

Os tratamentos foram implantados em parcelas retangulares de 7 x 7 plantas, espaçamento variando de 6 a 9 m2 por planta, com bordadura simples, e parcela útil de 25 plantas. As avaliações de mortalidade e altura das árvores foram realizadas em idades que variaram de 1,1 a 2,7 anos. Para a análise conjunta dos oito experimentos foi utilizado a Média Harmônica da Performance Relativa do Valor Genético (MHPRVG), usando-se o modelo 51 do programa Selegen, conforme descrito por Resende (2016).

Foi monitorado as possíveis causas de mortalidade das plantas, sendo observado em um dos locais a ocorrência de estresse abiótico durante a fase de estabelecimento das mudas e em outro local a ocorrência da mancha foliar que foi avaliada desfolha e mortalidade nove meses após o plantio.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

O valor genotípico médio de sobrevivência dos locais foi superior a 70% para 11 espécies, sendo que em Macapá e Telêmaco Borba a sobrevivência média ficou abaixo de 42% (Tabela 3). Dois fatores distintos explicam a baixa sobrevivência nesses locais: i) estresse abiótico em Telêmaco Borba com a ocorrência de estiagem com calor intenso e baixa umidade do ar em período chuvoso (veranico-Figura 1) logo após a implantação do experimento; e ii) estresse biótico em Macapá, aonde ocorreu a mancha foliar de Cylindrocladium que é uma doença comum em regiões tropicais (RODAS et al., 2005). Das 18 espécies estudadas em Macapá, observou-se que E. argophloia, E. brassiana, E. camaldulensis, E. major, E. moluccana e C. torelliana, a maioria de regiões tropicais, apresentaram menor intensidade de mancha foliar (Tabela 4). 

Tabela 3. Classificação das espécies na análise conjunta da sobrevivência pelo método da Média Harmônica da Performance Relativa do Valor Genético (MHPRVG) e valores genotípicos em cada um dos locais estudados.
Table 3. Classification of species by the joint analysis of survival by the Harmonic Mean Relative Performance of Genetic Value (HMRPVG) and genotypic values in each of the studied.
Ordem Espécie Mac Itam Par TL Bor Itat TB Pay MHPRVG*MG
(%)
1 CT 74 100 100 94 93 NA 64 100 97
2 cam 66 100 100 95 92 NA 65 100 96
3 uro 64 97 100 88 84 NA 56 NA 91
4 bra 61 93 100 90 90 NA 51 93 88
5 amp 46 94 100 84 92 99 71 93 86
6 CCC 52 92 99 88 92 100 47 NA 85
7 maj 43 93 99 89 90 100 58 97 84
8 CCV 54 89 96 83 87 NA 50 67 79
9 mol 42 82 94 79 90 95 38 86 75
10 CH 43 87 91 83 75 93 49 75 75
11 lon 25 89 96 80 91 98 55 84 74
12 cre 20 79 89 NA 77 88 NA NA 62
13 arg 19 NA 89 NA NA 91 NA NA 55
14 cla 10 63 71 NA NA NA 18 NA 33
15 tho 7 38 71 31 66 NA 26 48 32
16 occ NA 47 NA 22 9 NA 7 71 17
17 den 5 47 NA NA NA NA NA NA 15
18 bro 0 60 55 21 8 53 13 58 5
19 mac 0 52 30 18 1 50 1 36 3
Média 35 78 87 70 71 87 42 78
Legenda: Mac: Macapá, AP; Itam: Itamarandiba, MG; Par: Paraopeba, MG; TL: Três Lagoas, MS; Bor: Borebi, SP; Itat: Itatinga, SP; TB:Telêmaco Borba, PR; Pay: Paysandu, UR; NA: Não Avaliado

C. torelliana apresentou a melhor classificação na análise conjunta de sobrevivência, sendo a menor sobrevivência observada em Telêmaco Borba está relacionada ao veranico durante o mês de janeiro e fevereiro de 2017 que proporcionou umidade do ar abaixo de 80%, por pelo menos duas semanas durante a fase de estabelecimento das mudas no experimento. Silva et al. (2016a), discutem que a umidade do ar abaixo de 80% por um período de vários dias consecutivos gera a mortalidade se não houver irrigação durante a fase de estabelecimento do eucalipto.

E. argophloia, E. brookeriana, E. cladocalyx, E. crebra, E. denticulata, E. macarthurii, E. occidentalis e E. thozetiana apresentaram as menores taxas de sobrevivência, principalmente nas condições tropicais estudadas. Por outro lado, essas espécies podem ser trabalhadas para condições climáticas mais amenas visando inicialmente melhorar a sobrevivência das mesmas. Na Austrália, o E. cladocalyx e o E. occidentalis foram trabalhadas para formação de pomares para a produção de sementes melhoradas (BUSH et al., 2015; HARWOOD, 2011). O principal objetivo foi o desenvolvimento de materiais com alta tolerância à seca. No entanto, as duas espécies são de clima temperado e podem não apresentar sobrevivência ao verão chuvoso das regiões tropicais e subtropicais, conforme observado na maioria dos experimentos implantados no Brasil. Essa mortalidade ainda poderá aumentar, uma vez que as avaliações foram realizadas, até o momento, em idades relativamente jovens e as plantas passarão novamente por épocas críticas nos próximos anos.


Figura 1. Precipitação, temperatura média e umidade relativa do ar em Telêmaco Borba durante a fase de estabelecimento das mudas.
Figure 1. Rainfall, average temperature and air humidity in Telemaco Borba during the establishment of seedlings.

Dentre as espécies não tradicionais, E. longirostrata, C. henryi e E. major, apresentaram bom crescimento em altura, sendo que no experimento em Itatinga, a altura média das três espécies foi superior a 10 m, aos 32 meses após o plantio (Tabela 4). As três espécies apresentaram boa sobrevivência e crescimento na maioria dos locais, sendo que E. longirostrata foi a espécie que apresentou maior altura na análise conjunta dos experimentos. Porém, essa espécie não apresentou boa adaptação em Macapá, com clima Am, em que a sobrevivência foi inferior a 1%. Em Macapá, os materiais que apresentaram boa sobrevivência e maior crescimento pertencem ao subgênero Symphyomyrtus e seção Exsertaria ou são do gênero Corymbia, o que pode estar relacionado com a área de ocorrência natural dessas espécies, o que de acordo com Flores et al. (2016) são de ocorrência natural de regiões tropicais.

Tabela 4. Classificação das espécies na análise conjunta do crescimento em altura pelo método da Media Harmônica da Performance Relativa do Valor Genético (MHPRVG) e valores genotípicos em cada um dos locais estudados.
Table 4. Classification of species by the joint analysis of height growth by the Harmonic Mean Relative Performance of Genetic Value (HMRPVG) and genotypic values in each of the studied.
Espécie Intensidade mancha foliar Desfolha(%) Mortalidade(%)
1 CCC Alta 75 0 a 10
2 CCV Alta 75 10 a 20
3 CH Média 50 10 a 20
4 CT  - 0 0 a 5
5 E. amplifolia Alta 50 10 a 20
6 E. argophloia Baixa 25 0 a 10
7 E. brassiana  - 0 0 a 10
8 E. brookeriana  -  - 100
9 E. camaldulensis Baixa 25 10 a 20
10 E. cladocalyx  -  - 100
11 E. crebra Alta 90 70 a 80
12 E. denticulata  -  -  -
13 E. longirostrata Média 50 80 a 90
14 E. macarthurii  -  - 100
15 E. major Baixa 25 10 a 20
16 E. moluccana  - 0 0 a 5
17 E. thozetiana  -  - 100
18 E. urophylla Média 25 10 a 20
E. denticulata foi removido da análise pela falta de indivíduos no campo. Legenda: Mac: Macapá, AP; Itam: Itamarandiba, MG; Par: Paraopeba, MG; TL: Três Lagoas, MS; Bor: Borebi, SP; Itat: Itatinga, SP; TB:Telêmaco Borba, PR; Pay: Paysandu, UR; NA: Não avaliado

E. longirostrata foi a espécie que apresentou maior crescimento em altura, ficando à frente do E. urophylla na análise conjunta.  A espécie tem potencial para tolerância à seca e à ferrugem, porém, é suscetível à vespa-da-galha (SILVA et. al, 2016b; 2015), constituindo-se numa boa opção para a região sudeste e, possivelmente, centro oeste do Brasil, podendo ser utilizada em plantio puros ou na hibridação com as espécies tradicionalmente utilizadas no Brasil, E. grandis e E. urophylla.

Entre as espécies de Corymbia, C. henryi foi a que apresentou maior crescimento e boa sobrevivência na maioria dos locais, sendo uma opção para compor o híbrido com C. torelliana visando à obtenção de material com boa sobrevivência e produtividade (LEE et al., 2009). C. citriodora variegata (CCV) é uma espécie que também deve ser considerada na hibridação, pois obteve resultados semelhantes ao C. citriodora citriodora (CCC), sendo que o CCV obteve melhor classificação que CCC em altura em Três Lagoas e Borebi.  No Brasil o híbrido de Corymbia mais difundido é C. torelliana x C. citriodora, sendo que os resultados obtidos neste trabalho corroboram com estudos realizados na Austrália que destacam C. henryi e C. citriodora variegata com bom potencial para hibridação (LEE et al., 2007; 2005). A hibridação entre espécies do gênero Corymbia é uma das opções para minimizar o efeito dos estresses (ASSIS, 2015) e é de interesse para a produção de celulose a partir de matéria prima com alta densidade (BRAWNER et al., 2012).


CONCLUSÕES

Existem espécies que não são utilizadas comercialmente que apresentam boa sobrevivência e crescimento inicial como o Eucalyptus longirostrata, Corymbia henryi e C. citriodora variegata que devem ser trabalhadas nos programas de melhoramento em diversas condições climáticas. Mas em condições específicas, principalmente tropicais, a ocorrência de estresse bióticos e, ou abióticos pode inviabilizar a utilização de várias espécies com potencial de crescimento em outras condições ambientais, sendo necessário a estratificação por ambiental.


AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos revisores da Scientia Forestalis pelos comentários e sugestões que enriqueceram o manuscrito e as instituições Amcel, Arborgen, Aperam, Copener, Duratex, Eldorado, Fibria, Forestal Oriental, International Paper, Jari, Klabin, Lwarcel, Montes del Prata, Palmasola, Stora Enso, Vallourec, Veracel, Votoratin Siderurgia e Universidade de São Paulo pelo suporte na condução dos experimentos e no programa cooperativo sobre melhoramento do Instituto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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