Scientia Forestalis, volume 44, n. 110
p.435-442, junho de 2016

Deposição de serapilheira e micronutrientes ao longo das estações do ano em um plantio de eucalipto estabelecido sobre pastagem natural degradada no bioma pampa

Litter and micronutrients deposition throughout the seasons of the year in a eucalypt stans planted in a degraded pasture in the pampa biome

Robson Schaff Corrêa1
Mauro Valdir Schumacher2
Dione Richer Momolli3

1Professor Adjunto do Curso de Engenharia Florestal. UFG - Universidade Federal de Goiás. Campus Jataí - Rod BR 364, km 192, n 1800 - Parque Industrial - 75801615 - Jataí, GO, Brasil.  E-mail: schaffcorrea@ufg.br.
2Professor Titular do Departamento de Ciências Florestais. UFSM - Universidade Federal de Santa Maria - Camobi - 97105900 - Santa Maria, RS, Brasil. E-mail: mvschumacher@gmail.com.
3Graduando em Engenharia Florestal.  UFSM - Universidade Federal de Santa Maria - Camobi - 97105900 - Santa Maria, RS, Brasil. E-mail: dionemomolli@gmail.com.

Recebido em 15/09/2014 - Aceito para publicação em 01/12/2015

Resumo

Os objetivos do trabalho foram avaliar, na deposição de serapilheira ao longo das estações do ano, (1) a influência da posição dos coletores na quantidade coletada e (2) a quantificação dos micronutrientes para Eucalyptus dunnii. Ao longo de um ano, a serapilheira depositada foi fracionada em folha, miscelânea e galho grosso. Para avaliação da deposição das frações folha e miscelânea foram dispostos coletores próximos de árvores de DAP médio, nas posições entrelinha, linha, diagonal e encostado ao tronco das árvores. Na avaliação da deposição de galhos grossos foram alocadas áreas de coleta ao redor de árvores de DAP médio, DAP médio mais um desvio padrão e DAP médio menos um desvio padrão. Nas diferentes frações da serapilheira foram analisadas as concentrações de Cu, Fe, Mn, Zn e B, calculando-se posteriormente o aporte. Foram observadas maiores deposições de serapilheira na posição próxima ao tronco das árvores e deposição de galhos grossos não relacionada ao diâmetro das árvores. O aporte de micronutrientes foi influenciado mais pela quantidade de serapilheira depositada por cada fração do que pela concentração de micronutrientes nas diferentes frações.
Palavras-chave: ciclagem de nutrientes; nutrição florestal; silvicultura.

Abstract

The objectives were to evaluate, in litter deposition throughout the seasons of the year: (1) the influence of the position of litter traps and collected amount and; (2) the quantification of micronutrients for Eucalyptus dunnii. Over a year, litter-fall was fractioned in leaf, miscellaneous and coarse branches. The evaluation of the deposition of leaf and miscellaneous were done in litter traps disposes closed to average DBH trees, in the positions between rows, rows, diagonally and close to the trunk of the trees. In the evaluation of the deposition of coarse branches areas were centered around average DBH trees; average plus one standard deviation and average minus one standard deviation. In the different fractions of litter concentration Cu, Fe, Mn, Zn and B were analyzed, then inputs was calculated. Larger litter depositions were observed close to the tree trunks and deposition of coarse branches unrelated to diameter of the tress. Micronutrient input was influenced more by the amount of litter deposited than the concentration of micronutrients in the different fractions.
Keywords: nutrient cycling; forest nutrition; silviculture.


INTRODUÇÃO

Em meados de 2005 iniciou-se um novo ciclo de investimentos em florestas no estado do Rio Grande do Sul, que resultou num aumento médio anual de 11% na área plantada com eucalipto, partindo de 153 mil ha em 2004 para 273 mil ha em 2009 (ABRAF, 2009, 2011). Estes novos plantios foram realizados em locais onde até então não havia significativa área com silvicultura, como no Bioma Pampa, região de Savana Estépica com terrenos areníticos e solos distróficos lixiviados (MARCHIORI, 2002). Nestes ambientes com solos de baixa fertilidade natural, há necessidade de se aumentar o entendimento acerca da ciclagem de nutrientes nos povoamentos.

Esta ciclagem de nutrientes refere-se à transferência dos minerais acumulados na biomassa vegetal para o solo, principalmente, através da queda de resíduos da parte aérea que irá formar a serapilheira (KRAMER; KOZLOWSKI, 1960; FASSEBENDER, 1993; GAMA-RODRIGUES, 1997; BARBOSA, 2000). A compreensão do ciclo dos nutrientes é fundamental para a definição de tecnologias de manejo florestal, como a aplicação de fertilizantes (GONÇALVES et al., 2000), neste sentido estudos com aporte de material decíduo podem ser utilizados (CORRÊA NETO et al., 2014).

Na amostragem do aporte de serapilheira é levado em consideração o formato, a área de coleta, o número e a disposição dos coletores (SCORIZA et al., 2012). No caso de florestas plantadas são encontrados estudos com disposição de coletores em relação ao tronco (VIERA et al., 2014), em relação à linha de plantio (BELLOTE et al., 2008) ou até mesmo sem indicação (YANG et al., 2014).

O aporte de serapilheira também pode indicar a mobilidade de nutrientes, quando se compara as concentrações de nutrientes nos tecidos fisiologicamente ativos com as dos tecidos senescentes. Isto indica também a magnitude do processo de ciclagem bioquímica, como referenciados por Leite et al. (2011); Viera e Schumacher (2009).

Deste modo, os objetivos do presente estudo foram avaliar a variação da deposição de serapilheira ao longo das estações do ano em diferentes posições de coleta e quantificar os micronutrientes, via queda de serapilheira, em um plantio de E. dunnii Maiden.


MATERIAL E MÉTODOS

Segundo a classificação climática proposta por Maluf (2000), o clima regional na área de estudo é subtemperado úmido, com temperatura média anual de 18,6 ºC e precipitação média anual de 1.574 mm, em que os verões podem apresentar período de seca. O relevo da região é de plano a ondulado, com ocorrência de afloramentos rochosos e solos arenosos. No talhão em estudo havia campo alterado/degradado pela agricultura e pastoreio, sendo o solo classificado como Latossolo Vermelho distrófico típico (SANTOS et al., 2013).

A Tabela 1 apresenta a caracterização do solo do talhão nas camadas de 0,0-0,2; 0,2-0,4; 0,4-0,6; 0,6-0,8 e 0,8-1,0 m de profundidade. As análises foram realizadas segundo a metodologia de Tedesco et al. (1995), em que o pH foi determinado em água na proporção solo-água de 1:2,5 através de potenciometria; a inferência do teor de H+ + Al+++ foi feita pelo método SMP; a matéria orgânica do solo (MOS) foi determinada por combustão úmida com K2Cr2O7 + H2SO4 através de espectrofotometria; o alumínio trocável (Al+++) foi extraído por solução KCl 1 M e determinado por titulometria; os cátions trocáveis Ca e Mg foram extraídos também com KCl 1 M, mas determinados com espectrometria de absorção atômica; K trocável e P disponível foram extraídos pela solução Mehlich 1 (HCl + H2SO4), com determinações por fotometria de chama para K e espectrofotometria para P; S disponível foi extraído por Ca(H2PO4) (500 mg de P L-1) e determinado por turbidimetria; e B foi extraído com água quente e determinado por espectrofotometria.

Tabela 1. Caracterização química do solo sob Eucalyptus dunnii em Alegrete, RS.
Table 1. Soil chemical characterization on Eucalyptus dunnii in Alegrete, Rio Grande do Sul State.
Camada MO pH CTCpH7 V B Cu Zn
m % (H2O) cmolc dm-3 % mg dm-3
0-0,2 1±0,15 4,74±0,06 8,96±1,36 9,07±3,11 0,35±0,07 2,29±0,4 0,57±0,09
0,2-0,4 0,91±0,1 4,84±0,05 9,59±1,23 10,99±1,2 0,42±0,12 2,14±0,07 0,35±0,02
0,4-0,6 0,85±0,07 4,96±0,03 10,11±2,02 15,15±1,89 0,47±0,04 2,2±0,21 0,24±0,01
0,6-0,8 0,78±0,07 4,98±0,01 10,78±2,52 20,51±1,96 0,43±0,07 2,23±0,14 0,23±0,11
0,8-1,0 0,72±0,06 5±0,07 10,95±1,72 21,22±2,57 0,43±0,08 2,01±0,21 0,29±0,17
Obs.: MO = matéria orgânica; V = saturação por bases; B = boro; Cu = cobre; Zn = zinco. Análise executada em amostra composta.

A implantação do povoamento foi feita em novembro de 2008 e as operações de implantação seguiram-se tratamentos silviculturais normalmente aplicados a plantios florestais de rápido crescimento, como controle de formigas, aplicação de herbicida em área total, subsolagem (a 50 cm de profundidade), irrigação e capinas na linha e entrelinha. A fertilização ocorreu no preparo do solo (300 kg ha-1 de Fosfato Natural Gafsa em linha) e após o plantio, aos 15 dias pela aplicação de 140 kg ha-1 de NPK 06-30-06 (covetas laterais) + 0,3% B e aos 40 e 90 dias pela aplicação de 120 kg ha-1 de NPK 22-01-18 + 0,3% B + 0,2% Cu (a lanço).

O plantio de Eucalyptus dunnii foi estabelecido em espaçamento entre plantas de 2,0 m na linha x 3,5 m na entrelinha. A localização deste se deu nas coordenadas geográficas centrais de latitude 29º 47’ S e longitude 55º 17’ O, na Fazenda Sesmaria Santo Inácio, no município de Alegrete, RS.

O estudo foi realizado durante o período de um ano, iniciando-se quando o povoamento estava com 16,5 meses de idade (referente ao mês de abril de 2010) e terminando quando o plantio tinha 28,5 meses de idade (referente ao mês de março de 2011).

Foi utilizado um talhão de aproximadamente 12 ha, onde foram demarcadas quatro parcelas de 20 m x 21 m, que correspondiam a 6 linhas com 10 plantas em cada linha. Em cada parcela foram alocados quatro coletores, os quais foram confeccionados com uma moldura de madeira com 0,5 m2 de área útil e fundo de sombrite de malha 2 mm, com uma altura de 50 cm em relação ao solo. Estes coletores foram utilizados para a coleta das frações folhas e miscelânea (constituída por galhos finos com diâmetro ≤ 5 mm, casca e material reprodutivo – estes tecidos vegetais não foram individualizados pelo pouco material coletado). Os coletores foram posicionados nas proximidades de árvores médias representativas de cada parcela nas posições linha entre duas árvores (L), entrelinha entre duas árvores (E), diagonal entre quatro árvores (D) e encostado no tronco de uma das árvores (A).

Além dos coletores, em cada parcela foram demarcadas quatro áreas de coleta da fração galhos grossos (diâmetro > 5 mm), sendo neste momento retirados todos os galhos presentes. Cada área de coleta perfazia uma área útil de 7 m2, obedecendo ao espaçamento de 2,0 m x 3,5 m. Duas destas áreas foram alocadas com uma árvore de DAP médio ao centro (m1 e m2), uma com uma árvore de DAP médio mais um desvio padrão ao centro (m+) e outra com, ao centro, uma árvore de DAP médio menos um desvio padrão (m-).

As coletas foram realizadas quinzenalmente e o material proveniente da primeira quinzena do mês era armazenado para união com o material proveniente da segunda coleta do mês, gerando-se amostras mensais. Após a união, a fração galhos grossos sofreu limpeza através de uma escova, para retirada de partículas de solo. Todas as amostras foram secas em estufa de circulação e renovação de ar a 70 °C até massa constante para posterior pesagem em balança de precisão (± 0,01 g).

Para a estimativa do valor de deposição de serapilheira, a massa de tecido vegetal coletada foi dividida pela respectiva área de coleta. Todos os resultados foram analisados com base nas estações climáticas do ano, outono (abril, maio e junho), inverno (julho, agosto e setembro), primavera (outubro, novembro e dezembro) e verão (janeiro, fevereiro e março). Assim, para avaliar a deposição, foi feita a soma dos dados mensais da deposição individual para cada coletor ao longo dos meses para cada estação e em cada parcela. Já para a determinação das concentrações dos micronutrientes, para cada fração foi feita a união dos tecidos vegetais coletados em todos os locais de coleta para cada parcela, seja coletor ou área de coleta. O aporte dos nutrientes foi calculado multiplicando-se a concentração dos nutrientes pela deposição, em cada fração.

As metodologias adotadas para análise das amostras de tecido vegetal foram as de Tedesco et al. (1995); Miyazawa et al. (1999), aplicando-se para cobre (Cu), ferro (Fe), manganês (Mn) e zinco (Zn) a digestão nítrico-perclórica (com HNO3 + HClO4 na razão 3:1) e determinação pelo método de espectrofotometria de absorção atômica em aparelho Perkin Elmer modelo Analyst 200.

A avaliação da deposição das frações da serapilheira, da concentração e do aporte de micronutrientes foi analisada nas diferentes posições de coleta e nas diferentes estações do ano, bem como a interação posição x estação. Para isto o delineamento experimental empregado foi o de blocos casualizados com parcelas subdivididas, em que o modelo matemático aplicado foi Yijk = m + bk + ai + (ba)ik + dj + (ad)ij + eijk, em que Y = variável dependente; m = média; b = blocos ou parcelas; a = tratamento principal (estação); ba = interação entre b e a; d = tratamento secundário (posições); ad = interação entre a e d; e = erro experimental e i, j e k = índices. Já para a avaliação da deposição anual, obtida pela somatória das deposições em cada estação, e da concentração dos micronutrientes nas diferentes frações da serapilheira foi utilizado o delineamento experimental blocos inteiramente casualizados, em que o modelo matemático aplicado foi Yij = m + bk + ai + eij, em que Y = variável dependente; m = média; b = blocos ou parcelas; a = tratamento aplicado (posições para deposição de serapilheira ou estações para concentração de micronutrientes); e = erro experimental e i e j = índices. Para todas as análises foram analisadas as médias segundo o teste de Scott-Knott, após comprovada diferença estatística significativa na análise de variância. Todas as análises foram realizadas no software Assistat Silva (2012), ao nível de 5% de probabilidade de erro.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Conforme a Tabela 2, a deposição de serapilheira foi de 4,1 Mg ha-1 ano-1 e apresentou variação ao longo das estações do ano, com maior deposição no verão (1,7 Mg ha-1) e menor no inverno (0,3 Mg ha-1). A deposição de serapilheira encontrada no presente estudo foi similar a encontrada no norte do estado do Rio de Janeiro para área de rebrota de E. grandis com idade de 1,5 ano, que alcançou 3,8 Mg ha-1 ano-1 (CUNHA et al., 2005), mas inferior aos valores encontrados por Corrêa Neto et al. (2014), que trabalharam em solos arenosos com diferentes qualidades de sítio.

Os resultados mostraram que quanto mais perto do tronco das árvores, maiores foram as deposições das frações miscelânea e folhas (Tabela 2), com aporte anual para a fração folhas de 93%, 6% para a fração miscelânea e de 1% para galhos grossos. As copas, que ainda não estavam totalmente desenvolvidas, possivelmente causaram este comportamento. Já em relação à fração galhos grossos, não foi obtida variação entre o local de amostragem, ou seja, o DAP da árvore não influenciou a deposição desta fração. A fração galhos grossos apresentou, ainda, heterogeneidade na deposição, demonstrada pelo alto desvio padrão em relação à média. A permanência dos galhos mortos aderidos aos troncos das árvores e a baixa idade do povoamento contribuíram para a menor deposição desta fração.

Tabela 2. Quantidade (kg ha-1) das frações folha, miscelânea e galhos grossos da serapilheira em diferentes posições de coleta ao longo das estações do ano em Eucalyptus dunnii - Alegrete, RS.
Table 2. Amount (kg ha-1) of the fractions leaves, miscellaneous and coarse branches in litter-fall in relation to sampling position throughout the seasons of the year in Eucalyptus dunnii – Alegrete, Rio Grande do Sul State.
Posição Ano Estação
Outono Inverno Primavera Verão
Folha
A 4676a# 578aB 286aB 1681aA 2131aA
L 4393a 715aC 468aC 1920aA 1290bB
E 3493b 233bB 231aB 1537aA 1492bA
D 2693b 152bB 113aB 991bA 1438bA
Média 3814±1121 419±292 275±169 1532±556 1588±539
Miscelânea
A 525a 30aC 41aC 137aB 316aA
L 215b 13aA 43aA 77bA 82bA
E 121b 10aA 13aA 45bA 53bA
D 114b 4aA 8aA 38bA 63bA
Média 244±208 14±17 26±23 74±49 129±152
Galho grosso
m- 37a 13aA 1aA 0aA 24aA
m1 21a 11aA 1aA 0aA 8aA
m2 33a 14aA 3aA 0aA 16aA
m+ 21a 2aA 4aA 0aA 16aA
Média 28±30 10±17 2±4 0±0 16±22
Obs.: média ± desvio padrão; A – encostado ao tronco da árvore, L – linha entre duas árvores, E – entrelinha entre duas árvores, D – centro das diagonais entre quatro árvores, m- – árvore com DAP médio menos 1 desvio padrão ao centro, m1 e m2 – árvores com DAP médio ao centro, m+ – árvore com DAP médio mais 1 desvio padrão ao centro; # letras diferentes, minúsculas na coluna e maiúsculas na linha, para uma mesma fração apresentam variação significativa para posição de coleta pelo teste de Scott-Knott ao nível de 5% de probabilidade de erro.

A amostragem de serapilheira consome um montante considerável de tempo, e, por conseguinte, recursos financeiros (BASTRUP-BIRK; BRÉDA, 2004). Florestas onde a fração galhos da serapilheira corresponde a uma proporção significativa da deposição ou aquelas caracterizadas pela heterogeneidade do dossel, ou seja, onde ainda não ocorreu fechamento de copa, podem necessitar de um maior intervalo de confiança nas análises quando há falta de amostragem intensiva ou de ampliação da área de coleta de componentes lenhosos (LEVETT et al., 1985), pois deve-se considerar a abertura do dossel, por exemplo, distribuindo coletores em relação à distância do tronco (Tabela 2).

Em relação às concentrações de micronutrientes, houve diferenças estatísticas entre as estações do ano, conforme a Tabela 3. Não foram feitas estas comparações para as frações miscelânea e galhos grossos devido às baixas deposições. Para estas frações, miscelânea e galhos grossos, foram analisados, respectivamente, o material depositado nos coletores e áreas de coleta, unindo-se as deposições em todas as parcelas, resultando em um único valor (Tabela 3).

Tabela 3. Concentração de micronutrientes na serapilheira ao longo das estações do ano em um plantio de Eucalyptus dunnii localizado em Alegrete, RS.
Table 3. Micronutrient concentration from litter-fall throughout the seasons of the year, in a Eucalyptus dunnii stand in Alegrete, Rio Grande do Sul State.
Fração Estação B Cu Fe Mn Zn
mg kg-1
F Outono 41,76b 4,33b 99,37b 1740,41b 13,49a
Inverno 33,90c 5,63a 143,08a 1644,01b 13,82a
Primavera 43,32b 4,03b 130,50a 1731,76b 10,37b
Verão 50,56a 2,90c 156,29a 2301,65a 8,37c
Média 42,38±6,83 4,22±1,12 132,31±24,35 1854,46±301,29 11,51±2,61
M Outono 20,14 8,00 126,46 529,05 18,45
Inverno 15,16 9,46 52,86 630,51 13,48
Primavera 13,37 6,14 70,03 580,12 11,64
Verão 16,62 5,15 93,93 615,45 12,66
Média 16,32±2,87 7,19±1,92 85,82±31,90 588,78±45,08 14,05±3,02
GG Outono 7,10 5,01 28,98 381,04 7,02
Inverno 5,90 5,14 37,19 312,68 7,23
Primavera 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Verão 8,82 4,66 53,47 572,65 6,47
Média 5,46±3,83 3,70±2,48 29,91±22,39 316,59±238,02 5,18±3,47
Obs.: média ± desvio padrão; médias seguidas por letras diferentes na coluna, considerando cada micronutriente e fração da serapilheira, são estatisticamente diferentes pelo Teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade de erro; F = folha; M = miscelânea; GG = galho grosso B = boro; Cu = cobre; Fe = ferro; Mn = manganês; Zn = zinco.

Apesar da concentração adequada de B, Zn e Cu no solo, a concentração na fração folhas da serapilheira, quando comparada com a concentração de referência para análise foliar expostas em Gonçalves (1995), mostra-se adequada para B; baixa para Cu, Fe e Zn e bastante elevada para Mn. A elevada concentração de Mn deve, no entanto, ser analisada com ressalvas, dada a diferença fisiológica entre os tecidos envolvidos e da imobilidade do nutriente. As baixas concentrações de Cu e Zn podem estar associadas à sua mobilidade, expressa pelas menores concentrações no período de crescimento, ou à alta concentração de Mn, já que há interação entre Zn e Mn (DECHEN; NACHTIGALL, 2006).

Já em relação às estações, B e Mn apresentaram menores concentrações no inverno e maiores no verão, Cu e Zn mostraram-se com menores concentrações no verão e maiores no inverno. O micronutriente Fe foi o único que, apesar da diferença entre estações, não apresentou tendência de maior ou menor concentração inverno e verão. Mesmo que, por exemplo, Magalhães e Blum (1999) indiquem imobilidade para B e Mn há dificuldade em avaliar nossos resultados já que os tecidos utilizados no presente estudo são mortos. Talvez o comportamento destes deva ser objeto de mais estudos, pois deveria se esperar que nutrientes móveis não variassem entre estações, já que seu conteúdo seria drenado para outros locais durante o processo de abscisão. Neste sentido Soares et al. (2000) evidenciam diferenças entre espécies na restrição de translocação de Cu, por exemplo.

A ordem de concentração de micronutrientes nas frações da serapilheira foi similar a encontrada por Silva et al. (1983) para análise foliar em tecido vivo. Estes autores encontraram a ordem Mn > Fe > Cu > Zn, para Eucalyptus dunnii, Eucalyptus saligna e Eucalyptus grandis, plantados em solo arenoso e de baixa fertilidade em Itirapina/SP, aos 10 anos de idade.

Em relação ao retorno de micronutrientes, os maiores aportes ocorreram nas estações primavera e verão (Tabela 4), como resultado da maior deposição nestas estações, já que para alguns elementos a concentração foi mais alta no outono e inverno.

Tabela 4. Aporte de micronutrientes nas frações folha, miscelânea e galhos grossos da serapilheira ao longo das estações do ano em um plantio de Eucalyptus dunnii localizado em Alegrete, RS.
Table 4. Micronutrient input in leaves, miscellaneous and coarse branches fractions from litter-fall throughout the seasons of the year in a Eucalyptus dunnii stand located in Alegrete, Rio Grande do Sul State.
Estação B Cu Fe Mn Zn
g ha-1 ano-1
Folha
Outono 17,02b 1,78b 39,88b 725,16c 5,55b
Inverno 9,11b 1,64b 37,61b 448,14c 3,7b
Primavera 67,69a 5,53a 207,25a 2821,18b 15,64a
Verão 80,66a 4,68a 248,7a 3685,34a 13,32a
Soma 174,48±35,82 13,63±1,99 533,44±110,56 7679,82±1583,52 38,22±5,81
Miscelânea
Outono 0,28b 0,11b 1,69b 7,78b 0,26b
Inverno 0,38b 0,25b 1,26b 16,06b 0,38b
Primavera 0,98b 0,42a 5,07b 39,53b 0,95a
Verão 2,14±a 0,65a 12,07a 77,05a 1,59a
Soma 3,78±0,85 1,43±0,23 20,09±5 140,42±31,03 3,18±0,61
Galhos grossos
Outono 0,09a 0,07a 0,43a 8,02a 0,09a
Inverno 0,02a 0,01a 0,13a 1,03a 0,02b
Primavera 0a 0a 0a 0a 0b
Verão 0,14a 0,07a 0,85a 9,89a 0,10a
Soma 0,24±0,06 0,15±0,04 1,41±0,38 18,94±4,95 0,21±0,05
Total 178,5±36,61 15,21±2,17 554,94±115,21 7839,17±1614,11 41,6±6,31
Obs.: média ± desvio padrão; médias seguidas por letras diferentes, considerando cada micronutriente e fração da serapilheira, são estatisticamente diferentes pelo Teste de Scott-Knott a 5% de probabilidade de erro; B = boro; Cu = cobre; Fe = ferro; Mn = manganês; Zn = zinco.

Houve diferença estatística entre as estações com relação ao aporte de micronutrientes via deposição de serapilheira nas frações folha e miscelânea e para o micronutriente Fe na fração galho grosso. A fração folha representou uma média de 95% do aporte anual de micronutrientes, o que é explicado pela contribuição de 93% da fração folha na serapilheira depositada e também pelas maiores concentrações médias mensais de micronutrientes da fração folhas, à exceção de Cu e Zn, que foram superiores na fração miscelânea, mas com a fração folhas apresentando 59 e 82% da concentração nesta fração, respectivamente. O aporte de Mn foi mais elevado do que o aporte dos macronutrientes S e P (CORRÊA et al., 2013).


CONCLUSÕES

A deposição das frações folhas e miscelânea apresentou variação em relação à proximidade de coleta do tronco das árvores. Estas frações apresentaram maiores deposições na primavera e verão. O DAP das árvores não alterou a quantidade depositada da fração galhos grossos. A ordem de aporte dos micronutrientes para serapilheira e suas frações foi Mn > Fe > B > Zn > Cu. A concentração de micronutrientes nas frações da serapilheira seguiu a ordem folha > miscelânea > galhos grossos para B, Fe e Mn; já para Cu e Zn foi miscelânea > folhas > galhos grossos. A concentração média de micronutrientes foi de Mn > Fe > B > Zn > Cu, em todas as frações.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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