ALERTA PROTEF

Ocorrência do Psilídeo de Concha (Glycaspis brimblecombei) em Florestas de Eucalipto no Brasil

Prof. Dr. Carlos F. Wilcken - Coordenador PROTEF
FCA/UNESP - Campus de Botucatu

Introdução

O setor florestal brasileiro vem sofrendo perdas consideráveis com a introdução de pragas exóticas nas duas últimas décadas. As florestas de Pinus foram as mais afetadas, com a ocorrência da vespa-da-madeira Sirex noctilio em 1988 e com as recentes introduções dos pulgões do Pinus (Cinara pinivora e C. atlantica), que vêm causando mortalidade em plantios novos entre 10 e 15 % e do pulgão lanígero Pineus sp. As florestas de eucalipto têm como principais problemas pragas nativas, como as formigas cortadeiras, cupins, lagartas desfolhadoras e o besouro amarelo. As pragas exóticas, apesar de terem sido registradas a longa data, como a broca-do-eucalipto Phoracantha semipunctata e o gorgulho-do-eucalipto (Gonipterus gibberus e G. scutellatus) têm causado perdas econômicas reduzidas.

Entretanto, a recente descoberta da ocorrência do psilídeo de concha (Glycaspis brimblecombei) em nosso país pode quebrar este paradigma, de acordo com os danos verificados pela introdução desta praga nos EUA e México.

Ocorrência de Glycaspis brimblecombei no Estado de São Paulo

Por solicitação de uma das empresas associadas ao IPEF, foi realizada visita em áreas florestais no município de Mogi-Guaçú, SP. Foi verificada em talhões de Eucalyptus grandis x urophylla (urograndis) a presença de folhas de eucalipto com quantidade expressiva de pequenos cones brancos, semelhantes a pequenas conchas, de material ceroso. Em uma área experimental a situação era mais grave, com alta infestação das folhas das árvores de E. camaldulensis e E. tereticornis. As folhas das árvores de ambas espécies estavam recobertas de conchas brancas. Sob as conchas foram encontradas ninfas de diferentes ínstares de uma espécie de psilídeo, as quais exsudavam impressionante quantidade de excrementos líquidos (“honeydew”), que escorriam pelas folhas e pelos ramos. Os ramos e tronco das árvores apresentavam coloração preta devido ao desenvolvimento de um fungo saprófita, sintoma este chamado de fumagina.

A Praga

Os psilídeos (fig. 1 e 2) são insetos da ordem Hemiptera, subordem Homoptera, família Psyllidae. São insetos diminutos (comprimento entre 1 a 5 mm), semelhantes a pequenas cigarrinhas e de hábito sugador, tendo grande preferência por brotações e folhas novas. A espécie coletada sobre as árvores de eucalipto em Mogi-Guaçú apresenta adultos de coloração cinza-alaranjada a amarelo-esverdeada e 2 pares de asas. As ninfas nos primeiros ínstares são amareladas e as ninfas de último instar apresentam o abdome e os primórdios das asas de coloração escura. Quanto à biologia, a reprodução é sexuada (presença de machos e fêmeas), sendo que as fêmeas ovipositam nas folhas abertas, sendo os ovos de coloração avermelhada. Provavelmente, esta espécie possui 5 ínstares ninfais, como todas as espécies de psilídeos já estudadas (HODKINSON, 1974; DREISTADT & DAHLSTEN, 2001). Todas as espécies conhecidas são fitófagas e os danos causados são (COSTA LIMA (1942); HODKINSON (1974); GALLO et al., 1978):
· Enrolamento do limbo foliar
· Formação de galhas (devido a injeção de saliva tóxica)
· Super brotamento (“envassouramento”)
· Induz aparecimento de fumagina (fungo preto saprófita que se desenvolve sobre as excreções açucaradas que o inseto elimina)
· Transmissão de agentes fitopatogênicos (bactérias, vírus e micoplasmas)

Na Austrália, os gêneros de psilídeos Cardiaspina e Glycaspis constituem-se em pragas do eucalipto, causando descoloração das folhas, redução da área fotossintética das plantas, redução no crescimento das árvores e secamento dos ponteiros (CARNE & TAYLOR, 1984), podendo levaras árvores à morte, como nos surtos causados por G. baileyi em E. saligna (ELLIOTT et al., 1998). Estes autores ainda citam que danos de geadas podem predispor árvores ao ataque de psilídeos.

A ocorrência de psilídeos em plantios de eucalipto no Brasil foi primeiramente constatada em 1993 em plantios de eucalipto na região de Itararé, SP, sendo confirmada a espécie Cteranytaina spatulata. No Paraná ocorre também C. eucalypti, sendo associada a secamento de ponteiros de eucalipto.

Foi realizada coleta de ninfas, adultos e folhas com os sintomas do inseto e trazida para o laboratório de Entomologia Florestal da FCA/UNESP – Campus de Botucatu para identificação. Após comparação com imagens de publicações australianas e americanas sobre estes insetos, verificou-se que tratava-se de um psilídeo do gênero Glycaspis, que foi confirmada pelo Dr. Donald Dahlsten, da Universidade da Califórnia, EUA. A identificação da espécie como sendo Glycaspis brimblecombei foi feita pelo Dr. Daniel Burckhardt, do Museu de História Natural da Basiléia, Suíça.

G. brimblecombei foi introduzida na Califórnia (EUA) em 1998, causando secamento de ponteiros em E. camaldulensis, E. tereticornis e E. rudis. Esta praga, em 2000, dispersou-se por todo o México e foi encontrada na Flórida e Havaí (DAHLSTEN & DREISTADT, 2003) e em 2002 foi detectado no Chile.

Este inseto é conhecido como “red gum lerp psyllid” e em português pode ser denominado de “psilídeo de concha”. Amostras desse inseto já foram enviadas aos EUA para confirmação da identificação.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) já foi notificado sobre a ocorrência do psilídeo de concha, principalmente por se tratar de uma praga quarentenária para o Brasil.

Os Danos

Inicialmente, em 06 de junho de 2003, os danos no campo foram observados apenas nas árvores de E. camaldulensis e E. tereticornis, com pequena redução no tamanho e deformação das folhas e a presença de fumagina (figura 2a e 2b). Em 22 de julho, ou seja, 46 dias após a primeira detecção, árvores de clones de E. grandis x urophylla (“urograndis”), que inicialmente apresentavam algumas conchas brancas, estavam com secamento de ponteiros e desfolha entre 20 a 30 %. Árvores dominadas apresentavam desfolha de 100 %, sem possibilidade de recuperação. Entretanto, nos EUA foi verificada a queda de folhas, secamento de ponteiros de árvores dominantes e mortalidade de árvores dominadas, dependendo da espécie (tabela 1).

Tabela 1. Reação de algumas espécies de eucalipto ao ataque de Glycaspis brimblecombei (Hemiptera: Psyllidae) nos EUA (DAHLSTEN et al., 2003)

Espécie de Eucalipto

Reação

E. camaldulensis

Suscetível

E. citriodora

Intermediária

E. globulus

Intermediária - Pouco Suscetível ou Não Atacada

E. grandis

Intermediária

E. paniculata Pouco Suscetível ou Não Atacada
E. robusta Pouco Suscetível ou Não Atacada
E. saligna Pouco Suscetível ou Não Atacada
E. tereticornis Suscetível

Baseado nesse estudo, foi realizado um levantamento da infestação pelo psilídeo-de-concha em 22 espécies de eucalipto mantidas no arboreto de espécies florestais da FCA/UNESP – Campus de Botucatu, contando-se o número de ninfas e posturas em folhas de cinco árvores/espécie. Os resultados foram os seguintes (figura 3): E. camaldulensis apresentou a maior infestação, com 25,8 ninfas/folha, seguido de E. tereticornis (14,8). E. urophylla, das procedências Timor e Flores (uroT e uroF), formaram um segundo grupo, com infestação de 1,7 e 0,9 ninfas/folha.

Distribuição Geográfica

Após a constatação da praga estamos iniciando um levantamento para verificar a distribuição geográfica no Estado de São Paulo. Até o momento o inseto foi encontrado em 45 municípios, sendo os limites as regiões de Itapeva (sul), Coroados (Oeste), Salto do Pirapora e São João da Boa Vista (Leste) e Altinópolis (Norte), sendo as florestas entre as regiões de Campinas e Ribeirão Preto as mais infestadas.

Além de São Paulo, a praga já foi detectada na região de Paracatu, MG. O psilídeo de concha não foi detectado nas regiões produtoras dos estados de MS, PR, ES e BA.

Recomendações
Levantamento e monitoramento

Para que o PROTEF/IPEF possa atuar no sentido de coordenar e realizar pesquisas sobre manejo e controle da praga é necessário sabermos da real extensão do problema no país. Dessa forma, solicitamos aos profissionais responsáveis pela área de Proteção Florestal das empresas florestais que realizem vistorias nos plantios de eucalipto e nos informem sobre a detecção, para auxiliar no planejamento de estratégias de controle, pois quanto mais restrita for a ocorrência da praga, maiores as chances de sucesso no controle.

Como provavelmente o inseto deve ter sido introduzido há um ano, devido à intensidade do ataque observada e a presença de folhas secas no solo com a presença de conchas, é recomendado vistorias em todas as áreas florestais, principalmente em plantios com idade de até 1,5 ano, pois os insetos também podem atacar mudas no viveiro e pode ocorrer disseminação desta forma. Reitera-se que esta espécie é bastante agressiva e dissemina-se com impressionante rapidez.

Estamos realizando testes prévios com cartões adesivos amarelos,com a finalidade de facilitar e padronizar o monitoramento no campo.

Manejo e Controle

Antes de se recomendar controle químico para o ataque de psilídeos é necessário primeiramente se quantificar os danos causados pelo psilídeo.

Além disso, foi verificado no material trazido ao laboratório de Entomologia Florestal da FCA / UNESP - Botucatu a presença de inimigos naturais das ninfas dos psilídeos, sendo encontrada uma espécie de fungo entomopatogênico. Na Austrália são relatados que os predadores generalistas são importantes no controle biológico, como as larvas da mosca sirfídea (Diptera: Syrphidae), larvas do bicho-lixeiro (Neuroptera: Chrysopidae) e as joaninhas (Coleoptera: Coccinellidae).

Nos EUA foi realizada a importação de parasitóides da Austrália para a Califórnia e uma espécie (Psyllaephagus bliteus – Hymenoptera: Encyrtidae) se estabeleceu no campo e tem controlado a praga no campo. Já foram contactados o pesquisador americano responsável e os pesquisadores do Quarentenário “Costa Lima”, da EMBRAPA Meio Ambiente, em Jaguariúna, SP, para verificar a elaboração de um projeto conjunto de importação desse parasitóide para o Brasil.

Considerações Finais

Por ser um problema recente nos reflorestamentos de eucalipto, os psilídeos merecem maiores atenções tanto dos pesquisadores quanto dos técnicos das empresas florestais. Para termos sucesso no controle dessa praga necessitamos do apoio das empresas florestais quanto à disponibilidade de informações sobre a ocorrência da praga e de áreas para experimentação.

O PROTEF/IPEF fica à disposição para informar sobre o avanço desta praga florestal no Brasil e coordenar projetos de pesquisa.

Figura 1. Glycaspis brimblecombei: a) Adulto; b) ninfa.

Figura 2. a) Folha de E. camaldulensis com conchas, ninfas e ovos; b) aspecto das folhas atacadas pelo psilídeo de concha.

Figura 3. Sintomas: a) Fumagina; b) Folha com mela

Figura 4. Sintomas: Quebra de Ponteiros.

Referências Bibliográficas

CARNE, P.B. & TAYLOR, K.L. 1984. Insect pests. In: HILLIS, W.E. & BROWN, A.G. (Eds.) Eucalyptus for wood production. CSIRO / Academic Press. pp. 155 - 68.

COSTA LIMA, A. 1942. Insetos do Brasil. 3º Tomo: Homópteros. Rio de Janeiro, ENA, Série Didática 4. 327 p.

DAHLSTEN, D.L.; DREISTADT, S.H.; GARRISON, R.W.; GILL, R.J. 2003. Pest notes: Eucalyptus redgum lerp psyllid. Oakland, Univ. Calif. Agric. Nat. Res. Publ. 7460. 4 p. disponível de world wide web http://www.ipm.ucdavis.edu. Acessado em 18/06/2003.

DREISTADT, S.H.; DAHLSTEN, D.L. 2001. Pest notes: Psyllids. Oakland, Univ. Calif. Agric. Nat. Res. Publ. 7423. 6 p. disponível de world wide web http://www.ipm.ucdavis.edu. Acessado em 18/06/2003.

ELLIOTT, H.J.; OHMART, C.P.; WYLIE, F.R. 1998. Insect pests of Australian forests. Melbourne, Inkata Press. 214 p.

GALLO, D.; NAKANO, O.; SILVEIRA NETO, S.; CARVALHO, R.P.L.; BATISTA, G.C. de; BERTI FILHO, E.; PARRA, J.R.P.; ZUCCHI, R.A.; ALVES, S.B. 1978. Manual de Entomologia Agrícola. S. Paulo, Ed. Agr. Ceres. 531 p.

HODKINSON, I.D. 1974. The biology of Psylloidea (Homoptera): a review. Bull. Ent. Res., 64:325-39.




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