Ricardo Michael de Melo Sixel
Acadêmico em Engenharia Florestal – ESALQ/USP
Junho/2008

1. Condução da floresta

Existem vários sistemas silviculturais que podem ser utilizados de acordo com os diferentes produtos da floresta. O sistema silvicultural adotado determina a distribuição das idades das árvores, ou seja, a estrutura do povoamento. Segundo Matthews (1996) os sistemas silviculturais representam o processo de condução das florestas, exploração e regeneração, dentro dos quais pode se estabelecer diferentes regimes de manejo, de acordo com cada tipo de produto que se quer obter. Neste sentido, serão abordados dois regimes de regeneração - alto fuste e talhadia, nos quais se aplicam sistemas de exploração caracterizados por corte raso e desbastes, onde se pode utilizar de trato cultural caracterizado como desrama.

No manejo do alto fuste são necessários apenas tratos culturais à formação da floresta (preparo do solo, plantio, irrigação, adubação, controle de pragas, doenças e da mato-competição) e obtém-se normalmente somente um produto com o corte raso da floresta. Entretanto, para formação de florestas visando diversos produtos, faz-se necessário o uso de outras técnicas que permitirão a obtenção de madeira com maior valor agregado. Esse maior valor é obtido com melhorias da qualidade da madeira que depende de três fatores: forma da árvore, dimensões e características físicas. Isto é, estes efeitos podem ser resumidos na obtenção de toras com maior diâmetro e livre de nós, em que é necessário o manejo adequado da floresta através das práticas de desrama e desbaste.

2. Manejo de alto fuste – corte/reforma

Este regime de manejo prioriza a produção de madeira de menores diâmetros, sendo usado para maximizar a produção por unidade de área. É o manejo utilizado para obtenção de matéria prima nas grandes empresas para produção de celulose, painéis de madeira reconstituída, carvão e energia. Sua característica é de não promover intervenções de desbaste ou desrama na floresta até o corte final (corte raso), variando com a qualidade do sitio e a espécie: eucalipto em torno de 7 anos e pinus em torno de 14 anos (SCOLFORO e MAESTRI, 1998).

Neste sistema, após o corte da floresta realiza-se o replantio (reforma) que normalmente é realizado com a troca de material genético e na entrelinha do plantio antigo. Deve-se manter o resíduo da colheita sobre a linha de tocos do plantio anterior, de modo a facilitar o preparo da entrelinha para o novo plantio. Recomenda-se, também, a retirada da madeira deixando a cepa o mais rente possível ao solo.

Segundo Scolforo e Maestri (1998), o sistema de alto fuste é compatível para manejos em sítios poucos produtivos não se recomendam o manejo com desbastes, pois as receitas proporcionadas pelo acréscimo de madeira advindo com este manejo são menores que os custos do mesmo.

3. Talhadia

É a condução do crescimento dos brotos nas cepas da floresta recém cortada, dando-se início a um novo ciclo florestal, sendo somente aplicável às espécies florestais que tenham capacidade de brotar após o seu corte. A utilização deste sistema justifica-se por proporcionar menores custos na produção madeireira, produção de madeira de menores dimensões, dispensa de preparo de solo e aquisição de mudas, e ciclos de cortes mais curtos com antecipação de retornos financeiros mais rápidos (LAMPRECHT, 1990; EVANS, 1992).

À adoção do sistema de talhadia recomenda-se a escolha de espécies com boa capacidade de rebrotar, áreas com baixa mortalidade, material genético de qualidade e espaçamento adequado. São vários os fatores que influenciam a produtividade das cepas, sendo principalmente devido ao material genético, à altura de corte das cepas, ao tipo do solo, à face de exposição do terreno, à sobrevivência, ao sombreamento das cepas, às formigas cortadeiras e cupins, à época de corte, ao mato-competição, aos danos às cepas e às condições climáticas.

Segundo Stape (1997) são três os fatores condicionantes ao desenvolvimento das cepas: genéticos, operacionais e ambientais. Estes fatores determinam três fases de brotação das cepas: fase de emissão, estabelecimento e crescimento. E em cada uma destas fases são caracterizados fatores influentes ao desenvolvimento dos brotos. Assim, na primeira fase, os fatores de influência são: espécie/procedência/clone, estresse hídrico e nutricional. Na fase de estabelecimento das cepas, deve-se atentar para altura das cepas, formigas e cupins, sombreamento, danos de colheita e densidade de plantas. Por fim, na última fase, os fatores de influencia são: regime térmico, regime hídrico, condição edafo-fisiográfica, fertilização/irrigação, mato-competição.

Um aspecto importante deste sistema, diz respeito ao manejo de resíduo da colheita. Este deve ser mantido sobre a entrelinha de plantio, pois a rebrota ficará comprometida se as cepas forem cobertas ou danificadas. Além disso, a execução da colheita com maquinário pode causar danos a regeneração das cepas, devido à compactação do solo que é agravada por não se realizar o preparo de solo, danos ao sistema radicular, e os danos diretos sobre as cepas. Esses danos se refletem na capacidade de rebrota e desenvolvimento dos novos fustes.

Para esse sistema, recomenda-se a retirada da madeira deixando a cepa com 10 a 15 cm de altura. Para a condução da talhadia é aconselhável realizar adubação semelhante àquela recomendada no plantio e o combate às formigas cortadeiras é de suma importância para evitar drástica redução na sobrevivência das cepas.

Para otimização da produção, realiza-se o manejo da brotação visando à recuperação da população original que consiste na retirada dos brotos inferiores, deixando 1 ou 2 por cepa para compensar as falhas, quando apresentarem aproximadamente 7 a 8 m de altura (SCOLFORO e MAESTRI, 1998).  Os brotos escolhidos devem estar bem inseridos na cepa, ter boa forma e sanidade. A desbrota pode ser realizada de maneira manual ou semi-mecanizada, utilizando-se uma moto-roçadora. O rendimento do sistema semi-mecanizado é cerca de três vezes superior ao sistema manual e com as vantagens de menor desgaste físico do trabalhador, melhor qualidade e maior segurança. Esse sistema permite obter duas ou três rotações sucessivas de um único plantio.

A adoção do sistema de talhadia pelas empresas florestais tem sido deixado de lado em função da grande oscilação da produção em segunda rotação Simões (1980), que em geral tem se mostrado menor, devido ao aumento do numero de falhas, comprometendo o planejamento de abastecimento da fábrica. Ainda sim, a evolução do melhoramento genético permitiu a substituição de materiais menos produtivos por material melhorado, mais produtivo, e melhor adaptado às condições do sítio.


Figura 1: Efeito da presença do nó na madeira

4. Desrama

É uma operação visa à obtenção de toras sem a presença de nós, melhorando a qualidade e aumentando o valor da madeira. Esta operação é realizada em diferentes momentos na floresta, dependendo do seu potencial produtivo, a qual também determinará a altura limite de desrama. A eliminação dos galhos é uma prática aplicada às florestas que visam à produção de madeira para movelaria, pisos, produção de chapas laminadas etc.

A desrama também pode ocorrer naturalmente dependendo da espécie utilizada e o espaçamento do povoamento, porém, o tempo de permanência do galho no fuste implicará na formação do nó, mesmo que o galho já esteja morto. Este é o caso do eucalipto, no entanto, o fato é que esta atividade deve ser levada em conta caso se deseje a obtenção de madeira de qualidade superior, pois mesmo com a morte do galho, por vezes, este não cai, sendo englobado pelos anéis de crescimento, deixando a madeira marcada. O nó além de provocar perda de qualidade visual, também implica em perda qualidade nas propriedades mecânicas da madeira.

Na realização desta atividade, o corte deve ser bem rente ao fuste, pois mesmo que seja cortado o galho a 1cm do fuste, este 1 cm ficará marcado na madeira, pois a árvore só produzirá madeira livre de nó quando seu crescimento em diâmetro suplantar esta medida. Como a desrama é uma prática que causa diminuição na área foliar da planta (recomenda-se a retirada de até 1/3 da altura da copa), se não conduzida de madeira adequada pode provocar o retardamento do crescimento da planta, além de ser via acesso a contaminação por patógenos, caso na realização da atividade seja feita feridas. Por isso, recomenda-se o uso de uma serra, não se devendo tentar quebrá-lo ou arrancá-lo.

As florestas devem receber a desrama quando o diâmetro do tronco estiver com o tamanho apropriado para a finalidade desejada, ou seja, inicia-se quando a base do segmento do tronco a ser desramado atingir o diâmetro máximo aceitável para o núcleo nodoso. Não se deve esperar muito tempo para retirar os galhos mortos, pois esses irão transforma-se em sérios defeitos da madeira, pois quando secos podem se desprender da peça.

Por ser tratar de uma operação cara, em função da quantidade de mão-de-obra envolvida, a desrama deve ser limitada aos indivíduos que apresentam as melhores características para a serraria ou laminação. Na maioria dos casos, realiza-se apenas a desrama das árvores que serão conduzidas até o final do ciclo de corte, correspondente a aproximadamente 400 árvores/ha. Ocasionalmente, pode-se desramar um grande número de árvores antes do primeiro desbaste, pois se trabalha em uma altura que é facilmente atingida e a seleção das árvores superiores, na fase inicial do plantio, é complicada.


Figura 2 – Primeira desrama do plantio de Pinus

As toras de maiores diâmetros são obtidas na parte inferior do fuste e é apenas dessa região que devem ser retirados os galhos. A altura máxima da desrama varia de 4 a 8 metros do solo. A retirada dos galhos mortos e secos (poda seca) pode ser realizada em qualquer período do ano. Para a retirada dos galhos vivos (poda verde) recomenda-se realizá-la no período de maior crescimento vegetativo, quando a cicatrização é mais rápida.

Desbastes

O desbaste é uma atividade silvicultural que tem como objetivo a remoção de algumas árvores de forma a favorecer o crescimento das árvores remanescentes. Essa retirada visa, portanto, diminuir a competição existente entre as plantas, disponibilizando maior quantidade de recursos, principalmente água e luz. Com maior quantidade de recursos as árvores remanescentes irão apresentar maiores taxas de crescimento, produzindo toras com maiores diâmetros em um menor período de tempo, deste modo essa atividade deve ser compatível com os objetivos de produção. Um aspecto muito importante desta atividade é a relação entre o volume em crescimento e o volume existente, pois deve existir um equilíbrio entre a produção e o estoque para assegurar o máximo retorno do capital investido. Isto é, deve-se intervir na floresta de modo que o potencial disponível para crescimento seja totalmente utilizado. O programa de desbastes é realizado em ciclos longos de corte, no qual se retiram gradativamente as árvores, não deixando a floresta totalmente exposta.

Segundo Scolforo e Maestri (1998), o desbaste tem por finalidade a produção intermediária de madeira ao longo do ciclo florestal; melhorar o padrão das florestas remanescentes, através da retirada de árvores de menor padrão e proteger as árvores do ataque de pragas e doenças, por meio da diminuição do estresse das mesmas, evitando-se também a taxa de mortalidade.

A atividade de desbaste acarreta em maiores investimentos, sendo necessário um planejamento de sua execução, considerando os custos do corte e retirada, e o valor da venda da madeira. A tendência é realizar menos desbastes com maiores intensidades. Desta forma, no planejamento, deve-se levar e consideração o tipo de desbaste, o inicio do desbaste (avaliando as condições de crescimento da floresta), a intensidade dos desbastes e intervalo entre possíveis desbastes sucessivos. Complementando, deve-se dar preferência a este manejo em sítios mais produtivos, pois os retornos podem ser comprometidos (SCOLFORO e MAESTRI, 1998).

Nas florestas plantadas, podem ser utilizados dois tipos de desbaste: o sistemático e o seletivo.

5.1 Desbaste sistemático: Consiste na retirada das plantas sem prévia avaliação, por exemplo, retirada de uma em cada 4 linhas de plantio. Os desbastes sistemáticos são mais recomendáveis para povoamentos altamente uniformes, nos quais as árvores pouco se diferenciaram entre si. Por isso, caso seja aplicado em povoamentos de menor uniformidade, a sua utilização acarreta em perda de indivíduos superiores. Esse sistema é mais simples e as principais vantagens são a facilidade de execução, sem a necessidade de selecionar as árvores e menos custo de extração. A desvantagem é a menor produtividade do plantio, pois sem seleção, são retiradas também árvores com bom crescimento.

5.2 Desbaste seletivo: Consiste na retirada de plantas segundo certas características pré-estabelecidas, que variam de acordo com o propósito a que se destina a produção. Para a escolha dessas árvores, é necessária a prévia seleção no campo, o que não ocorre no desbaste sistemático. O sistema mais empregado é o seletivo por baixo, que consiste na remoção das árvores inferiores (dominadas ou defeituosas), deixando as árvores de maiores diâmetros. Esse método é mais trabalhoso, porém permite melhores resultados na produção e na qualidade da madeira. As desvantagens é o alto custo da operação, maior dificuldade de extração das árvores. É necessário também o treinamento de mão de obra para realização da seleção e marcação prévia nas árvores antes do corte.

A variação no diâmetro das árvores induzida pelos desbastes é muito ampla. Desbastes leves podem não causar efeito algum sobre o crescimento. Desbastes muito intensos conseguem o aumento na produção individual das árvores, mas com algumas desvantagens, entre elas: o menor crescimento em altura, o formato do tronco mais cônico e o aparecimento de mato-competição e de galhos.

Para determinar a época da intervenção é necessário o acompanhamento do crescimento da floresta, sendo a realização do desbaste no momento em que a competição entre as árvores começa a provocar o decréscimo do incremento individual.

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