Produtos Florestais Não-Madeireiros: Um Importante Potencial nas Florestas

Prof. José Otávio Brito
Boletim Informativo ARESB Edição 47 (Janeiro-Fevereiro/2003)

O domínio da madeira e de seus derivados no mercado internacional de produtos florestais é relativamente recente. Ao seu lado, existem Produtos Floretais Não-Madeireiros, PFNMs, que ainda mantém altos níveis de importância, sendo que muitos povos e comunidades, incluíndo o Brasil, possuem alta dependência destes recursos como fonte de alimentos, medicamentos, materiais de construção e habitação e usos culturais. Diversos ainda são os produtos que possuem alta representação no mercado mundial de produtos florestais.

Graças às experiências observadas junto às comunidades que possuem fortes vinculações às florestas, os profissionais florestais têm redescoberto o grande potencial dos PFNMs, para atendimento das nossas necessidades atuais e futuras. Atenção especial tem sido concedida ao conceito de que, sob certas condições básicas, eles podem ser obtidos e utilizados, sem que se processe a destruição dos recursos florestais.

Exceção feita à madeira propriamente dita, todos os demais produtos obtidos das florestas poderiam ser identificados com PFNMs. Há que se considerar, no entanto, que nesta identificação a gama de produtos resultante é muito ampla, fazendo com que algumas especificações adicionais devam ser propostas.

Em primeiro lugar, a tendência observada é a de se incluir como PFNMs somente os produtos de origem biológica, tendo sido considerado racional não incluir o solo, o sub-solo e a água como recursos florestal. A tendência é a de não se incluir as atividades turísticas, de lazer, de caça, de pesca, etc, que devem ser conceituadas como serviços das florestas. Da mesma forma as influências das florestas na proteção dos recursos hídricos, na conservação ambiental e na proteção da biodiversidade, devem ser consideradas como benefícios das florestas. Evidentemente, é excluída dos PFNMs a madeira em todas as suas formas e dimensões.

Apesar de suas importâncias históricas, só recentemente houve uma retomada de interesse da ciência e dos governos contemporâneos, na direção dos PFNMs. Isto tem ocorrido, particularmente, devido aos estudos que têm mostrado que além do potencial de ampliação de produtos obtidos, a atividade pode proporcionar maior engajamento de pessoas, que passam a ter na atividade um importante componente de subsistência. Há indicações de que a geração de emprego em florestas onde se trabalha com a obtenção de PFNMs é de 5 a 15 vezes maior do que no processo da simples exploração madeireira.

A amplitude de PFNMs é bastante grande, da mesma forma que é enorme o potencial para a inclusão de novos produtos, sobretudo em se considerando a biodiversidade das florestas tropicais. Muitos possuem importância primária para aplicações domésticas e nas economias locais. Outros, porém, elevam-se à categoria de produtos com grande importância comercial junto ao mercado internacional, seja na sua forma original ou sob diferentes estágios de processamento.

Uma grande parte dos PFNMs são de interesse do mercado, por conta de seus atributos químicos, o que permite agrupá-los numa classe especial denominada "Produtos Químicos Florestais Não-Madeireiros - PQFNMs". Este agrupamento identifica que sobre o produto existe um forte e específico interesse relacionado à um ou mais de seus componentes químicos ou princípios ativos, ao interesse sobre uma de suas propriedades químicas, ou à implicação se uso de métodos ou procedimentos químicos para seus processamentos, aplicações e/ou usos. São considerados PQFNMs os exudatos e produtos naturais similares, tais como gomas, resinas, óleos, extratos com corantes vegetais, taninos, produtos medicinais, fito-farmacêuticos e fitoquímicos, etc.

O sucesso na exploração dos PQFNMs somente será garantida se forem muito bem conhecidas suas disponibilidades e seus potenciais de sustentabilidade. Além disso há que ter uma boa informação sobre o mercado consumidor. Devem ainda serem estimuladas ações que induzam ao processamento parcial ou total dos produtos próximo às fontes dos recursos florestais, o que poderá aumentar as receitas dos produtores em termos de comercialização. Necessário também se faz a prospecção de novos nichos de mercado que os produtos podem preencher. Outro aspecto importante é a identificação da escala apropriada para processamento dos recursos e os níveis de qualidade requeridos para os produtos e de especialização dos empreendimentos. Em geral em escala doméstica, o processamento limita-se à secagem e à embalagem dos produtos. Numa escala comunitária as operações podem incluir o processamento de produtos medicinais, óleos vegetais, sabões, corantes e taninos. Em centros mais complexos podem ser incluídos o processamento da goma-resina de Pinus, ceras e óleos vegetais. todas as atividades devem ser iniciadas em escala piloto, no sentido de serem testados o processo, as qualidades do produto e as preferências do mercado. A definição por sistemas que apresentem flexibilidade para o processamento de diferentes produtos poderá reduzir os custos individuais dos produtos.

Antes de qualquer ação no sentido do planejamento de atividades de exploração de PQFNMs, faz-se indispensável o total conhecimento das regras e regulamentos e os padrões de qualidade sob os quais as matérias-primas e os produtos a serem obtidos estão sujeitos. É importante ainda o estabelecimento de meios para o monitoramento de suas qualidades.

É fundamental ainda o acompanhamento de novas pesquisas sobre processamentos das matérias-primas e aplicações dos produtos, além da atenção quanto à possibilidade do surgimento de produtos substitutos alternativos concorrentes. O estabelecimento de redes de informações e esforços conjugados, em nível regional e nacional, para a manutenção de centros de pesquisa para estudos sobre a obtenção e qualidade das matérias-primas e de processamento e qualidade dos produtos finais são também complementos indispensáveis.

O Professor José Otávio Brito é responsável pela área de Química da Madeira e Recursos Energéticos Florestais do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP.




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