As florestas e a obtenção de produtos não-madeireiros

Prof. José Otávio Brito - LCF/ESALQ/USP.
E-mail: jotbrito@esalq.usp.br
Revisado em 15/06/2005

Uma análise histórica nos mostrará que, tradicionalmente, a madeira nem sempre foi o principal produto a justificar nosso interesse pelas florestas, sendo seu domínio no mercado internacional relativamente recente. Em que pese tal fato, existem produtos florestais não-madeireiros, que ainda são altamente importantes, possuindo expressiva representação no mercado mundial de produtos florestais.

O termo Produtos Florestais Não-Madeireiros – PFNMs - é relativamente novo e, apesar da natural integração existente entre eles e a madeira e os demais serviços e benefícios oferecidos pelas florestas, é aconselhável e necessária a separação dos seus diferentes potenciais.

Em primeiro lugar, a tendência observada é a de se incluir como PFNMs somente os produtos de origem biológica, tendo sido considerado racional não incluir o solo, o sub-solo e a água como recurso florestal. Há ainda a tendência de não se incluir as atividades turísticas, de lazer, de caça, de pesca etc, que devem ser identificadas como serviços. Da mesma forma, as influências das florestas na proteção de recursos hídricos, na conservação ambiental a na proteção da biodiversidade, devem se consideradas como benefícios das florestas. Evidentemente, a madeira é excluída da lista dos PFNMs, em todas as suas formas e dimensões, quando sobre ela existir interesse de uso, motivado pelas características que lhe são oferecidas pelas suas características fibrosas e dos seus constituintes fundamentais, lignina, celulose e hemiceluloses. Isso é válido, independentemente dos produtos terem suas origens junto a florestas nativas ou plantadas. Há que se considerar, no entanto, a necessidade de serem respeitados todos os conceitos e atendidas todas as necessidades relacionadas às questões ambientais e sociais de cada região e de cada ecossistema.

Apesar da importância histórica, só recentemente houve uma retomada de interesse da ciência e da sociedade contemporânea, na direção dos PFNMs, havendo três razões básicas principais para que isto não tenha ocorrido a mais tempo. A primeira razão diz respeito ao fato de que tais produtos sempre estiveram fortemente atrelados às populações rurais e/ou mercados das comunidades locais e, por conta disto, os mesmos não têm sido computados nas estatísticas oficiais de produção. A segunda, refere-se ao fato de que há uma tendência, em geral, de se definir os produtos oriundos das comunidades rurais como produtos agrícolas, sendo que, muitas vezes aí estão relacionados produtos florestais, incluindo-se os PFNMs. Assim, a origem florestal dos produtos e a nossa dependência em relação às florestas não são reconhecidos. Finalmente, a moderna atividade florestal tem favorecido a produção madeireira e o estabelecimento de empresas de grande porte e, em tal situação, os produtos não-madeireiro são tratados incidentalmente.

A amplitude de PFNMs é bastante grande, da mesma forma que é enorme o potencial para a inclusão de novos produtos, sobretudo em se considerando a biodiversidade das florestas tropicais. Muitos possuem importância primária para aplicações domésticas e nas economias locais. Outros, porém, elevam-se à categoria de produtos com grande importância comercial junto ao mercado internacional, seja na sua forma original ou sob diferentes estágios de processamento.

Ao menos 150 PFNMs são referenciados no mercado internacional, a maioria deles é comercializada em pequenas quantidades, mas alguns produtos podem alcançar níveis elevados, como são os casos da terebintina e do breu obtidos da resina de Pinus, os óleos essenciais de eucalipto, a borracha natural, as nozes, o mel, a raiz de ginseng etc. Tem sido observado, de uma forma geral, que os produtos que se apresentam em grandes quantidades no mercado internacional estão vinculados a algum tipo de prática agrícola/silvicultural. Outros produtos que também podem ser ainda citados, além de resinas e óleos são: corantes vegetais, taninos, plantas medicinais, taninos, resinas, látex, ceras, alimentos etc.

Concluindo, deve-se ter em conta que o sucesso na exploração dos produtos somente será garantida se forem muito bem conhecidas suas disponibilidades e seus potenciais de sustentabilidade. Além disso, há que se ter um boa informação sobre o mercado consumidor. Devem ainda ser estimuladas ações que induzam ao processamento parcial ou total dos produtos próximo às fontes dos recursos florestais, o que poderá aumentar as receitas dos produtores em termos de comercialização. Necessário também se faz a prospecção de novos nichos de mercado que os produtos podem preencher. A identificação da escala apropriada para processamento dos recursos e os níveis de qualidade requeridos para os produtos e de especialização dos empreendimentos é outro aspecto importante a ser levado em conta. Em geral, na escala doméstica, o processamento limita-se à secagem e à embalagem dos produtos. Na escala comunitária as operações podem incluir o processamento de produtos medicinais, óleos vegetais, sabões, corantes e taninos. Em centros mais complexos podem ser incluídos os processamentos da goma-resina de Pinus, ceras e óleos vegetais. Todas as atividades devem ser iniciadas em escala piloto, no sentido de serem testados o processo, as qualidades do produto e as preferências do mercado. A definição por sistemas que apresentem flexibilidade para o processamento de diferentes produtos poderá reduzir os custos individuais dos produtos. Antes de qualquer ação no sentido do planejamento de atividades de exploração dos produtos, faz-se indispensável o total conhecimento das regras e regulamentos e os padrões de qualidade sob os quais as matérias-primas e os produtos a serem obtidos estão sujeitos. É importante ainda o estabelecimento de meios para o monitoramento da qualidade do produto. É fundamental ainda o acompanhamento das novas pesquisas sobre processamentos das matérias-primas e aplicações dos produtos, além da atenção quanto à possibilidade do surgimento de produtos substitutos alternativos concorrentes. O estabelecimento de redes de informações e esforços conjugados, em nível regional e nacional, para a manutenção de centros de pesquisa para estudos sobre a obtenção e qualidade das matérias-primas e de processamento e qualidade dos produtos finais são também complementos indispensáveis.

Obtenção de resina de Pinus Obtenção de látex de seringueira
Obtenção de folhas de eucalipto para extração de óleo essencial



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